EXCERTOS DO LIVRO: CORRIJA O SEU FILHO
     MONS. LVARO NEGROMONTE
     EDIES RUMO S.A. RIO DE JANEIRO  1961




              NDICE TRANSCRITO




         1- CORREO DAS CRIANAS
                   2- O AGITADO
                  3- O COLRICO
               4- O DESOBEDIENTE
                   5- O EGOSTA
         6- O QUE NO QUER ESTUDAR
           7- O QUE MEXE NO ALHEIO
                    8- O GULOSO
                  9- O MEDROSO
         10- O QUE FALTA  VERDADE
                11- O ORGULHOSO
                12- O PREGUIOSO
                      1- CORREO DAS CRIANAS




                          NECESSIDADE DA CORREO

Pensem-no embora os naturalistas e os pais mais ingnuos ou cegos de mal entendido
amor, no h crianas sem defeitos. Por bem dotadas que sejam, sempre o tero. Se
muito fortes, as prprias qualidades os trazem consigo. Por isso  de necessidade a
correo.

Deus a ordena - "Quem poupa a vara odeia o filho; mas quem o ama corrige-o na hora
oportuna" (Pv. 13,24). (No tomemos a palavra ao p da letra, como apologia do castigo
fsico... falando a linguagem dos homens do seu tempo, a Bblia quer inculcar a
necessidade da correo, que  o essencial no seu pensamento, sendo o meio a parte
acessria. Aqui, como em muitos outros passos da Escritura, devemos lembrar a sua
prpria advertncia: "A letra mata, mas o Esprito vivifica").

"No poupes a correo  criana" (Pv 13,24). "Aquele que ama o seu filho corrije-o
com freqncia, para que se alegre mais tarde" (Eclo. 30,1). E So Paulo, escrevendo
aos efsios: "E vs, pais, no provoqueis vosso filhos  ira, mas educai-os na disciplina
e na correo, segundo o esprito do Senhor" (Ef. 6,4).

A razo a requer - A situao do homem em face da moral no  apenas um dado da f.
Faz parte da Revelao,  fundamental ao Cristianismo, porque o Senhor veio para
restituir-nos a graa, perdida na queda do pai da humanidade. So Paulo diz que no faz
o bem que quer, e sim o mal que no quer; e sente no corpo uma fora que luta contra a
fora do esprito (Cf. Rm. 7,19-23). So Pedro, na sua primeira Epstola, fala
igualmente "dos desejos da carne que combatem contra a alma" (2,11).

A razo nos mostra a verdade desta situao. Cada um de ns pode repetir o poeta
francs que sentia dois homens em si - um que anseia pelo ideal, outro que se inclina
para os instintos, arrastando-se para erros e desvios, que requerem correo. Correo
maior ou menor, prpria ou alheia - conforme o caso.
A criana a exige - Sem uso da razo, ou com este apenas comeando, movida pela
sensibilidade em pleno domnio, a criana no tem capacidade para discernir o bem do
mal, nem vontade suficiente para deter-se em face das solicitaes instintivas.  o
educador que a deve orientar para fazer o bem e evitar o mal, corrigindo-a, quando ela
errar. Sem essa correo, corre a criana o risco de confundir noes contrrias, cuja
distino  essencial  vida moral. Para a criana o bem  o que os pais lhe permitem, o
mal o que eles lhe probem.

A experincia o confirma - Em todos ns esto os germes de virtudes e vcios, lanados
pela prpria natureza. Nos cristos, o Batismo infundiu as virtudes teologais e os dons
do Esprito Santo. Mas importa cultivar o campo, a fim de que a boa semente brote,
cresa e frutifique, e o joio seja erradicado. Deixado a si o terreno, despontam mais
facilmente os espinhos que a boa semente.

 esta a lio da experincia: sem orientao e correo, crescem as crianas estragadas
e viciosas; enquanto os frutos de virtude sazonam nas que tiveram o cultivo dos
educadores.

Finalidade

 trplice a finalidade da correo, cada uma marcada por valores, ligada  ordem
social.

Restaurar a ordem moral - Essencial para qualquer pessoa, este aspecto  ainda mais
importante para as crianas, cujo critrio para distinguir o bem e o mal,  s vezes,
exclusivamente, o modo de agir dos educadores. Se ela cometeu uma falta contra a
moral - um pequeno furto, uma desobedincia, uma mentira, etc. -, e no lhe exigimos a
reparao, pode parecer-lhe no ser mal o que fez. Ou se lhe exigirmos umas vezes, e
outras no, causamo-lhes confuso, pois no sabe se o seu ato foi bom ou mau.

Esse sentido de restaurao da ordem moral, superior aos homens porque pertence 
essncia    das    coisas,       indispensvel      pedagogia   da    correo.

Emendar a criana - Do interesse pessoal do educando, aqui est o mais importante da
correo. No que tange  ordem moral e  social, o trabalho seria mais fcil. A face
pedaggica  mais delicada e complexa, porque lida diretamente com a criana. Em que
consiste?

- Fazer que a criana "compreenda o erro" cometido e "procure evit-lo" no futuro. -
No deseja punir, mas melhorar. Se a criana ainda no  capaz de compreenso
propriamente dita, vai-se amestrando, lastreando o subconsciente e canalizando as
energias para o bem. Sendo capaz de compreender, o trabalho do educador  mov-la ao
desejo de corrigir-se, conseguir-lhe o arrependimento da falta e a deliberao de evit-
la.

- Impedir os maus hbitos e facilitar os bons. - Formentando o desenvolvimento dos
bons germes e combatendo os maus, iremos afastando a criana do vcio e afeioando-a
a virtude. Por sua natural inexperincia, ela errar muitas vezes os caminhos da vida:
ns a faremos voltar sobre si e tomar os caminhos certos, at que os aprenda, at que os
possa       acertar     por       si,    sem       mais       precisar     de      guia.
(Para a formao dos hbitos no basta a repetio dos atos, a qual no representa
educao. O hbito s  durvel quando vem de dentro para fora, parte da convico e
da vontade do sujeito. O trabalho do educador est em dar  criana a convico da
necessidade           e          o         desejo           de            realiz-la.)

- Inclinar para o dever. - A correo no  trabalho de adestramento de animais: mero
repetir mecnico at o hbito, firmado em reflexos condicionados. nem se contenta em
castigar, para que a criana evite o erro por medo. Ela , na verdade, meio educativo:
quer formar a conscincia, aguar o senso moral, ensinar a julgar, dar autodisciplina,
ensinar               o               cumprimento               do              dever.

- Ensinar "como" proceder bem. - A correo visa ao ideal: orienta-se para ele, e no o
perde vista - como tudo o que  realmente educativo. Mas caminha para ele passo a
passo.  mtodo: diz "como" agir, ensina a fazer, facilita a tarefa.  ajuda pessoal, de
ordem            prtica,         de           mestre              a           aprendiz;

- Criar facilidades  virtude - Posta em condies favorveis, a criana ter facilidades
maiores para o dever e a perfeio. Mais do que o adulto, ela cede s sugestes do meio.
Por isso, temos maior obrigao de aplainar-lhe o caminho do bem:

* ajudando-a a superar os defeitos, fraquezas e ms tendncias naturais;
* suprimindo ou enfraquecendo as influncias nocivas a sua formao - no lar, na
sociedade,                                   na                                  escola;
* dando-lhe resistncia para as inevitveis ocasies de tropeo: na rua, na escola, nas
visitas... - pois so perigos normais, a que ela deve saber resistir, uma vez que no a
queremos educar artificialmente, em redoma ou estufa, mas no mundo, ensinando-lhe a
super-lo, tal como fez Jesus com seus discpulos: "No peo que os tire do mundo, mas
que           os          preserves        do         mal"            (Jo.       17,15);

* desenvolvendo-lhe a vida espiritual, a fim de que, pela graa, pela orao, pelo temor
a Deus, pelo exemplo dos nossos maiores na f, ela "no se deixe vencer pelo mal, mas
vena o mal pelo bem" (Rm. 12,21), e - melhor ainda - faa do mal que lhe aparecer
uma                     ocasio                      de                      apostolado.

Assegurar a ordem - No subsistir uma sociedade que no respeita os princpios
morais. A impunidade de crimes e vcios  grande responsvel pelas desordens que
afligem os nossos tempos. No corrigir os culpados  abrir caminho a novas faltas dele
e dos outros. A experincia nos  por demais farta e onerosa, e dispensa insistncia.

Se isto  verdade para adultos, quanto mais para crianas! Negligenciada a correo,
abre-se a brecha: a nau da disciplina entra a fazer gua, e no tardar o naufrgio, a
menos que lhe acudam com redobrados trabalhos.

Corrigir no  castigar

O que dissemos marca a diferena entre correo e castigo - aquela, essencialmente
emendativa, e este, ordinariamente punitivo. Alis, os prprios nomes falam por si.
H mais de um sculo, o grande pedagogo francs Monsenhor Dupanloup acentuava
esta diferena, de que no tomaram conhecimento os educadores em geral.

Para os que procuram mais o prprio sossego que o progresso moral dos filhos, castigar
 mais cmodo: umas palmadas no pequenino que jogou a merenda no cho, uns
bofetes no rapazola que respondeu com arrogncia, chineladas na menina que entornou
tinta no vestido novo, um ms sem passeio para quem no teve mdia na prova parcial,
trancar as crianas no quarto dos fundos porque perturbaram o silncio de que precisa o
pai, e outras medidas policiais do mesmo teor do "solues" imediatas, que contentam
o adulto desprevenido, mas nada adiantam  educao, e, pelo contrrio a prejudicam.

A experincia ensina que os castigos so aplicados precisamente nas condies em que
no se deve sequer tentar a correo, isto , sob o impulso das paixes.  na hora da
zanga que os filhos apanham! Quando me consultam a respeito de castigos fsicos, no
perco tempo em combat-los: aprovo-os, desde que deixem passar a excitao e,
amanh ou depois, de sangue frio, cabea serena, chamem a criana, para malh-la.

A resposta  nica e infalvel: "Ah! mas assim ningum tem coragem"...  um ato
impulsivo, brbaro, desumano, que s se faz quando no se raciocina! Filho da
vingana, e no do amor.

Por isso mesmo, longe de educar, os castigos conseguem apenas:

- revoltar as crianas briosas;
- inferiorizar as tmidas;
- eliminar o amor e a confiana, que sero substitudas pelo medo e pela deslealdade;
- fixar as obstinadas, apegando-as cada vez mais a suas faltas, agravando-lhes a
situao, dificultando-lhes a correo;
- humilhar, em lugar de estimular (que  a grande ttica do educador)
- amedontrar, criando hipocrisias;
- orientar noutro sentido as violncias represadas, que se compensaro no furto, na
mentira, na impureza, e noutros derivativos da infelicidade;
- apurar a tcnica dos faltosos, para escaparem  frula;
- levar ao desespero - menino que foge de casa, menina que casa com o primeiro
doidivanas que lhe aparece, para escaparem  tirania do lar.

Os adeptos dos castigos, sobretudo dos castigos fsicos, alegam, satisfeitos, os
resultados de sua "paudagogia". De fato, h crianas de to boa ndole que se corrigem
mesmo assim; mas so raras. Comum  dar-se apenas uma aparncia de melhora.

Eliminam-se ou diminuem os frutos, mas a raiz fica, e frutificar de novo, quando
cessar a presso. A pobre criana cede, vtima de dois elementos que a dominam - por
fora  fora dos castigos, por dentro a tendncia que permanece intacta, quando no
reforada pela oposio.

Mais comum  virem os pais trazer-vos o adolescente traumatizado, revoltado,
endurecido ou humilhado, entregue a vcios, "incorrigveis", pedindo nossa ajuda: "J
fizemos tudo, e ele continua cada vez pior."
H, infelizmente, casos em que somos obrigados a impor castigos, em vista da fraqueza
de certos educandos, que  necessrio conter mesmo a contragosto seu. Mas ento deve
o educador procurar o bem direto da criana, e no uma satisfao  sua autoridade ou
uma justificativa  preguia de educar.

Fica, pois, acentuada a diferena entre castigo e correo, para que abramos mo
daquele e pratiquemos esta.

Trabalho de educao

 a correo puro trabalho educativo, em que ns somos apenas instrumentos
extrnsecos e transitrios, dispensados to logo esteja terminada a tarefa, e a criana  o
elemento primordial, a ser interessada na autodisciplina.

A correo s realiza o fim se atingir o ntimo da criana, criando-lhe uma atitude
interior, profunda, pessoal. Ela deseja uma mudana, determinada pelo prprio
educando, o qual se convence de que agiu mal, arrepende-se e se dispe a emendar-se.

O educador tem o seu papel, importantssimo, indispensvel (porque a criana  ainda
incapaz de realizar sozinha to difcil tarefa); mas  apenas um auxiliar. A sua funo,
nem sempre agradavelmente recebida,  ajudar. O trabalho decisivo  do educando.
Ningum o modifica, arrepende, delibera e corrige:  ele que se modifica, se arrepende,
se delibera e se corrige. Ele no o conseguir sem nossa ajuda; mas o trabalho de
corrigir-se  dele - de sua compreenso, de sua conscincia, de seus esforos.

Nossa grande virtude est em conseguirmos que ele queira corrigir-se.

Os pais e a correo

Em face da correo dos filhos, podemos classificar os pais em cinco categorias:

- os cegos: no vem as faltas dos seus encantadores rebentos;
- os fracos: no tm coragem ou autoridade para corrigir;
- os negligentes: no cuidam da correo dos filhos;
- os ignorantes: retos, bem intencionados, no sabem, contudo, como proceder;
- os certos: merc de Deus, os temos, e em nmero crescente.

Para curar os cegos, s Cristo, multiplicando por toda parte piscinas de Silo, para que
eles se lavem e vejam (Cf. Jo 9,7). Quanto aos mais, ajude-os e ilumine-os a graa de
Deus, que outra finalidade no temos seno animar os fracos, despertar os negligentes,
ensinar os de boa vontade, e estimular os certos.

Querer corrigir

Parte essencial da educao,  a correo grave dever dos pais. Alguns, porm, se
negam a cumpri-lo, esquecidos de que, mais do que a si, prejudicam as pobres crianas,
cujo futuro gravemente comprometem. Lembremo-lhes as severas admoestaes da
Bblia. Destaquemos o cap. 30 do Eclesistico, nos 13 versculos primeiros, por ser o
trecho que mais densamente fala do assunto (conferir).
Conhecer os filhos

Decididos a corrigir os filhos, sincera e eficazmente decididos, a primeira medida 
cuidar de conhec-los, para saber o que lhes ho de emendar.

Os conhecimentos da psicologia infantil so necessrios aos pais, sobretudo s mes. 
pena que os colgios femininos no os ministrem as suas alunas, juntamente com outros
elementos igualmente necessrios s mes de famlia. Para suprir esta deplorvel
deficincia, procurem os pais conhecer as caractersticas da alma infantil nas etapas do
desenvolvimento, inclusive a adolescncia. Isto lhes facilitar bastante o trato com os
filhos.

Alm desse conhecimento genrico, h outro, mais imediato, concreto e prtico, que
desejo encarecer.  preciso conhecer cada criana, na sua realidade. E para isto 
sumamente importante que os pais tenham olhos de ver e ouvidos de ouvir.
Olhos a ver

H pais que s enxergam qualidades em seus filhos. Sem dvida,  necessrio ressalt-
las, para estimular seu desenvolvimento, que nada  to benfico como um sadio
otimismo. Mas  tambm necessrio ver os defeitos, para corrigi-los. Outros so ainda
piores: no querem ver. Mesmo quando lhes apontam um defeito da criana, eles se
negam a reconhec-lo. No  defeito:  at qualidade! Exemplo:

O menino, 11 anos, chegou se gabando de ter enganado o coleguinha na troca de umas
bolas de gude; chamei a ateno da me para a desonestidade do filho, e ela me
respondeu: "Todos eles so assim: tm um jeito para negcios!... Puxaram ao pai."
Ouvidos de ouvir

A convivncia permanente s vezes dificulta o bom conhecimento. Um olhar estranho
observa melhor, mxime se for de educador, habituado  observao interessada de
qualidades e defeitos. Chamando a ateno de amigos para qualidades e defeitos de seus
filhos, tenho ouvido deles que ainda no os tinham notado, embora sejam cuidadosos na
educao.        E       alguns      ficam       agradecidos      pela      indicao.
Outros, porm, no querem ouvir, pensam (e dizem) que estamos acusando os "filhinhos
da mame", tomam atitude defensiva (quando no ofensiva...), justificam os mais
evidentes defeitos, estabelecem comparaes com outras crianas em face das quais
seus filhos so at muito bons!

Alguns exemplos

Da minha longa experincia poderia citar centenas de casos.

- Tendo-lhe o filho respondido grosseiramente, e como eu o chamasse arrebatado, o pai
redargiu: " muito brioso!"

- Aconselhei especiais cuidados, inclusive mdicos, para um menino com evidentes
sinais de efeminado; a me logo o defendeu: " to carinhoso!"
- Outra me, a quem notei que o filho era demasiado indolente, saiu-se com esta: "Quem
me dera que todos fossem sossegados como ele!"
... Desnecessrio prosseguir. Todos, infelizmente, conhecem casos semelhantes,
tambm em grande nmero.  pena, porque, ouvindo os mestres, os parentes, os amigos
verdadeiros, os entendidos em pedagogia, podem os pais encaminhar melhor a correo,
vale dizer a educao dos filhos. Se, porm, os no conhecem, como corrigi-los?

Desenganem-se, enquanto  tempo, os que se negam a ver e ouvir a verdade, a pretexto
de "adorarem" os filhos. O verdadeiro amor no  o que quer bem, mas sim o que quer o
bem. Fechar os olhos sobre os defeitos das crianas  preparar-lhes uma vida de
tropeos e desgostos, porque os estranhos no tero com eles a mesma tolerncia dos
pais, e mais tarde os prprios filhos sentiro dificuldades, praticamente insuperveis,
para                                   se                                   corrigirem.

No porque as faltas em si sejam incorrigveis (os irrecuperveis esto hoje reduzidos a
nmero cada vez menor), mas porque a pessoa no adquiriu capacidade de emendar-se.
Falta-lhe fora de vontade, mesmo quando reconhece os erros e a necessidade de
elimin-los.
Saber corrigir

Alm de conhecerem os filhos, devem os pais saber como agir, a fim de alcanarem os
desejados efeitos. No bastam boas intenes. A correo tem normas e tcnicas. Sem
isto, poder ser contraproducente. Vejamos qual deve ser a boa correo.

1.) Rara

O educador deve ver tudo, dissimular muito, corrigir quando necessrio.

- Ver tudo, para conhecer bem a crianas, no se deixar surpreender, nem passar por
tolo aos olhos das prprias crianas.

- Dissimular muito, porque muitas faltas no tm realmente importncia, umas so
prprias da idade e passam com ela, outras as prprias crianas notam e, quando esto
sendo educadas, tratam de emendar por si.

- Corrigir quando necessrio, porque a correo demasiada  prejudicial  educao.
Quando muito freqente, ela:

* perde o salutar efeito de inspirar desgosto  falta cometida, com o conseqente desejo
de emenda;
* enfraquece a autoridade do educador, ao invs de refor-la, como o faz, desde que
seja rara;
* insensibiliza a criana, que j no acode s advertncias, pela prpria impossibilidade
de faz-lo;
* pode mesmo ser contraproducente, tornando-se irritante - e nas poucas recomendaes
que fez So Paulo sobre a educao dos filhos pediu que no os irritassem (Ef. 5,4).

Premidas por uma disciplina muito estreita, censuradas a cada instante, derivam as
crianas para a falta de brio ou para uma situao emocional angustiante, que terminar
levando-as ao consultrio mdico.  pena que muitos pais, precisamente entre os mais
zelosos e bem intencionados, insistam, mesmo quando reconhecem que no adiantam
suas intervenes, e que at pioram a situao.

Dir-se-ia que o fazem mais em satisfao  prpria conscincia (mal orientada) que para
o bem do filho. Alguns at se aborrecem, quando lhes pedimos para no intervirem.

2.) Justa

H de corresponder a uma falta. O senso de justia  geralmente muito vivo nas
crianas, e elas repelem, magoadas, as correes injustas e as suportam, revoltadas,
ainda que se trate de simples advertncia. Se as repelem, mesmo que seja apenas
interiormente, j elas no produziro os procurados efeitos.

Quando, por si mesma, a criana percebe que errou e decide retificar-se, a interveno
dos pais ser apenas para apoi-la e estimul-la no seu propsito.

3.) Amorosa

Como toda a educao, a correo  obra do amor. Quando reveste aspectos muito
speros, h de ser (e parecer) to dolorosa a quem a aplica quanto a quem a recebe -
como certos tratamentos mdicos que somos obrigados a fazer das crianas, sabe Deus
com que dores no corao. Em qualquer caso, ela revelar sempre o cumprimento de um
dever, a preocupao de fazer bem, manifestao do amor. Para isto, ela ser:

* calma: o educador, no perfeito domnio de si, moderado nas palavras, nos gestos e no
olhar, para que no lhe saia obra de clera o que s deve ser obra de amor, lembrando
de que "s a razo tem o direito de corrigir", como disse Fnelon, e que quem se deixa
levar pelas paixes est mais precisado de impor a correo a si do que aos outros;

* bondosa: no a imporemos jamais porque fomos ns desobedecidos, mas porque a
criana a requer; no lhe daremos o aspecto de vingana ou desforra, mas de expiao
da ordem violada; nunca por motivos nossos, mas pelos interesses da criana e pela
manuteno da moral. Por isso, evitaremos as zombarias e humilhaes, que mais
servem para irritar e endurecer que para mover as crianas e sobretudo a mudarem de
vida.

4.) Profunda

S  eficaz a correo que vai  raiz das faltas. No basta ver que a criana furtou: 
preciso ver por que furtou. Como no basta obrig-la a restituir o objeto furtado: 
preciso remover o mvel do furto. Diga-se o mesmo dos outros defeitos.

H faltas isoladas, fruto de meras ocasies, acidentais portanto: para essas bastam s
correes superficiais. Mas h tambm as que correspondem tendncias profundas: se
no lhes formos  raiz, ficaremos a limpar permanentemente o terreno, na certeza de que
novos frutos cairo na primeira oportunidade.

 possvel que,  fora de insistncias, de extrema vigilncia e at de castigos haja uma
aparncia de melhora: - a criana submeteu-se, mas no se corrigiu, porque a tendncia
no foi atingida e espera apenas o momento de manifestar-se de novo. Ou tambm
acontece que, reprimida assim numa falta, ela se compensa noutra, s vezes pior do que
a primeira...

5.) Proporcionada

Tenhamos o mximo cuidado de fazer que a maneira de corrigir uma falta seja a que
melhor permita ao educando ver as funestas conseqncias morais, naturais ou sociais
do seu ato. S assim lhe facilitaremos compreender o prprio erro e querer emend-lo,
formando-lhe o senso moral e a vontade de ser bom.

Para isto a correo deve ser proporcionada  idade,  pessoa,  falta.

*  idade - Nos pequeninos, na medida em que a vida dos sentidos prevalecer, haver
mais um adestramento, com afirmaes simples e categricas, que visam  formao de
hbitos e  impregnao do subconsciente.  preciso atingir-lhes a sensibilidade, uma
vez que no se lhes pode apelar ainda para a compreenso. No lhes satisfazer os
caprichos, no ceder a suas insistncias e lgrimas, no lhe alimentar as ms tendncias
que se manifestam (gula, teimosia, egosmo, clera). E procurar encaminh-los, de
modo positivo, por atos que facilitem hbitos bons.

Com o desenvolvimento da inteligncia e da vontade, as preocupaes vo passando
paulatinamente por este terreno. Apela-se para a compreenso, a comear dos motivos
mais simples, com tarefas que lhes vo dando o domnio consciente de si, que lhes
toquem os gostos ou a liberdade, com ocupaes teis referentes ao que deviam ter feito
ou que realizaram mal.

Se a educao tiver normal desenvolvimento, o adolescente j poder ser chamado
totalmente  razo, cabendo-nos apenas ajud-lo no autogoverno, pois as paixes o
seduzem com especial energia.

*  pessoa - Erro comum entre os pais  tratarem os filhos do mesmo modo. Em casos
de fracasso, ouvimos com freqncia a queixa: "Eduquei todos do mesmo modo, e so
to diferentes..." Cada qual deve ser educado de acordo com suas caractersticas.

- Se duas filhas tm tipos fsicos diversos - uma gorduchinha e baixa, outra magra e
pernalta - no ocorrer certamente  me vesti-las com o mesmo manequim, s por
serem irms. Maiores so as diferenas de esprito e carter, igualmente visveis a olho
nu. Trat-las nos mesmos moldes no  to ridculo, porm  muito prejudicial.

- Imaginem o mdico que desse a todas as crianas de sua clnica a mesma receita,
alegando que esto na mesma enfermaria, e ele deve tratar a todas do mesmo modo...

 pena que os erros pedaggicos no gritem com a mesma fora. Uma errada noo de
justia leva certos educadores a tratarem do mesmo modo todos os educandos. Temem
talvez a perda da parcialidade. Fogem s explicaes que a diferena de tratamento
exige. E prejudicam assim a formao das crianas, pois cada uma delas h de ser
conduzidas ao mesmo fim, mas por caminhos diferentes.

*  falta - As faltas so mais ou menos graves, conforme o preceito que violam e as
circunstncias em que foram cometidas. Quem mente por vaidade ou em defesa, e quem
mente calculadamente para caluniar; quem tira a bola do colega, arrastado pelo desejo
de ter uma bola, e quem quebra a boneca da irm por inveja; quem deixa cair o relgio
por descuido, e quem o joga no cho por desaforo... Tm todos uma falta a corrigir, mas
em graus muito diferentes.

Tanto mais grave a falta, tanto mais cuidadosa a correo. No percamos de vista o
sentido de expiao que ela tem, nem a preocupao de ir s causas, que h de animar o
educador e o educando.

Ainda h pais que revelam as desonestidades dos filhos, mas os punem severamente
porque quebraram um prato.  porque, infelizmente, muitos pensam mais em castigar
que em corrigir. Outros no se importariam com a falta em si, mas se horrorizam com a
mera possibilidade de chegar ao conhecimento dos vizinhos...

6.) Contrria  falta

Cuide o preguioso de cumprir bem os deveres realizados sem protelao o seu trabalho
de cada dia.

- A menina desarrumada ser encarregada de arrumar a casa, tomando conscincia do
dever a cumprir e do cuidado de faz-lo bem feito, para a ntima satisfao (e, nos
cristos, para a glria de Deus).
- O egosta ser orientado para a ajuda fraterna em todos os terrenos, principalmente
naquele em que mais carecido se revela.
- O mentiroso, que impuser a si mesmo a humilhao de retificar-se, logo perder o
apetite mtico.
- Cura-se mais facilmente o agitado que treinar imobilidades e silncios voluntrios ou
compreendidos.
- pede-se aos negligentes o trabalho bem feito, a caligrafia caprichada, etc.

No julguemos, porm, sejam essas umas frmulas mgicas que resolvam tudo,
rapidamente e que, quando no resolverem, o caso  irremedivel. No h frmulas
mgicas em educao. As solues rpidas so pedidas em geral pelos que "no tm
tempo a perder com os filhos", e por isso perdem os filhos.

Finalmente, se a falta  apenas um sintoma, no  combatendo o sintoma que se cura um
mal, mas indo-lhe  raiz - como h ficou acentuado. E se a raiz no for atingida,
desesperam os educadores superficiais... e no se corrige a criana...

Joseph Durr ("L'Art des arts") tem a propsito uma pgina sem grande vo, mas til,
por isso mesmo, ao educador comum. Ele aconselha que  criana gulosa ou preguiosa
se imponham exerccios fsicos, trabalho regular e bem feito;  agitada de d um regime
firme, que lhe exija ordem e pontualidade:  trabalhadora e ambiciosa, inclinada a
dominar, oferecem-se ocasies de moderao, doura e pacincia;  tmida ministrem-se
como antdoto, exerccios fsicos, trabalhos de jardinagem e mercearia, etc., cultivando-
se-lhe a iniciativa e a confiana em si.

Como vemos, freqentemente a criana nem sabe que est sendo corrigida... O remdio
 levado insensivelmente  causa do mal. Em certos casos  mesmo necessrio que as
nossas intenes no apaream.
7.)Oportuna

"H tempo de calar, e tempo de falar", lembra-nos a Bblia (Ele. 3,7). Como a semente,
que parte de nossa mo e se realiza no seio da terra, assim a correo , o mais das
vezes, de iniciativa nossa, mas se completa no educando, por obra sua. E como a
semente no pode ser plantada em qualquer poca, porque "h tempo de plantar, e
tempo de colher" (ibd. v.2.), tambm a correo h de aguardar o momento oportuno.
S a propomos (ou impomos), na esperana de xito. E este depende do acolhimento
que s pode ser favorvel, se as circunstncias tambm o forem.

Na hora da zanga - a tendncia  mais para repelir que para aceitar qualquer sugesto de
emenda. Em presena de pessoas estranhas, de colegas e mesmo de irmos, quando
implica humilhao, tambm no ser nem aceita. Espera-se que a tormenta passe,
aborda-se o educando a ss, e, na calma de lado a lado, prope-se a desejada medida.

As mes crists tm excelente oportunidade quando, depois da orao da noite, vo ver
se os filhos esto bem acomodados no leito. Falando em voz mansa e amorosa, sentada
 beira da cama,  muito difcil no ser a me bem acolhida.

Aguarde-se,             pois,             o             momento               oportuno.

Tratando-se de crianas pequenas, no convm protelar muito a correo. Elas
esquecem facilmente que cometeram a falta, no estabelecem a necessria ligao entre
o erro e a emenda, podem achar injustas as medidas impostas, e ento o efeito ser
contrrio.

Em fase desses perigos, podemos recorrer s prticas corretivas sem aludir aos fatos
"esquecidos", alcanando os mesmos resultados, sem as contra-indicaes.

J o dissemos acima, mas uma repetio deste feitio faz sempre bem: exige-se o
momento oportuno tambm para o educador, que s deve agir quando pode revelar, pelo
domnio de si, que fala nele a razo, e no a paixo, que procura o bem da criana e no
o               desabafo                  da                prpria              clera.

8.)Perseverante

Da parte da criana, vontade frgil porque ainda em formao, compreende-se que haja
desfalecimentos, no constante recomear aps as faltas. Da parte dos pais, no! Eles ho
de querer sempre a correo dos filhos. Sempre - sincera e decididamente. Paciente, mas
obstinadamente. Santa obstinao! No desanimaro com as recadas, no se abatero
com os insucessos, no se cansaro com as recomendaes das mesmas prticas.

No contaro com resultados fceis, nem se acovardaro com as dificuldades.
Sobretudo, no se resignaro aos defeitos dos filhos; mas lutaro para corrigi-los.

E no ser uma luta episdica, descontnua, mas sistemtica, branda e permanente. No
 temporal do vero, mas a chuvinha mida e teimosa, que o povo chama "chiadeira",
porque          umedece            o         solo           em           profundidade.
Aquele amor de me que no conhece canseiras nem v sacrifcios, quando se trata da
sade dos filhos, no se h de mostrar menos dedicado e admirvel nas restauraes
morais.

O amor ensinar aos pais a serem bondosos at a ternura, mas decididos e persistentes,
porque "quem perseverar at o fim  que ser salvo" (Mt. 10,22).

9.)Firme

 por amor, o bem entendido amor, aquele que quer o bem, que a correo h de ser
firme- no frgil nem indulgente, mas segura, decidida e forte. Observa o grande
pedagogo suo Foerster ("Instrucion tica de la juventud") que a tendncia para a
condescendncia, caracterstica de nossos tempos,  prpria de homens fracos,
incapazes de suportar as conseqncias de seus atos, e que se justificam procurando
evit-las tambm nos outros. De fato, a fraqueza dos responsveis por crianas e
adolescentes gerou e multiplica a "juventude transviada" e a complacncia dos
responsveis pela segurana social impulsiona a mar montante de imoralidades e
crimes,      que    a      falta    de     formao      religiosa     desencadeou.

Condenando os processos da fora, sou, no entanto, pela educao forte. A tolerncia
com os defeitos das crianas leva-as muitas vezes ao crime. E a tolerncia com os
crimes     multiplica     os      criminosos      e      agrava      os      delitos.

A indulgncia, ao contrrio do que pensam os superficiais,  prejudicial ao educando.
Os que a defendem para a primeira falta, guardam a energia para as outras, to certos
esto de que elas viro. Quando mais lgico  ser firme logo que o mal aparece, para
evitar que prossiga. "A cobra se mata na cabea", diz a sabedoria popular. Um
tratamento adequado na primeira falta evitar provavelmente  segunda. Isto est na
lgica da correo e na psicologia do faltoso. - Na lgica da correo, porque, ao menos
quando se trata de lei moral violada, a expiao  exigncia indeclinvel. Em matria de
Moral, ningum pode ser tolerante, pois todos lhe estamos igualmente sujeitos.

- Na psicologia do educando, porque se ele associar  primeira falta uma reao
desagradvel, ficar inclinado a evit-la; ao passo que, se nenhuma corrigenda lhe foi
exigida,  provvel que se sinta estimulado a prosseguir no erro.

- Podemos tambm confundir a criana: ela pensava ter feito realmente um ato mau,
esperava reao dos pais, e estes nem ligaram... Ento, o ato no  to mau, pois
ningum ignora que as atitudes dos pais so para os filhos pequenos o critrio do bem e
do     mal.     E      est     aberto      o      caminho       s     reincidncias...

Porque queremos a correo de todos - menores e adultos -  que reclamamos antes
firmeza que indulgncia. Esta  geralmente tomada como fraqueza, e nada impressiona
to negativamente as crianas e jovens como a autoridade fraca.

Lembremos finalmente que firmeza no significa rudeza, mas requer a compreenso da
criana e a bondade de modos, tambm necessrias, como j ficou acentuado.

10.)Curta
As correes muito longas so antes castigos. Na verdade, cansam as crianas, do-lhes
a impresso de injustias, sendo repelidas - e no produzem efeito, ou o produzem
contrrio. Certas medidas so mais punitivas que educativas: - um ms sem sair de casa,
uma         semana       tomando         as      refeies       a      ss,       etc.

Pecam, sobretudo, por tirarem o estmulo  melhora. Se provocarmos desnimo em vez
de coragem, no estaremos impulsionando a criana para a perfeio.

Para ajudar na formao de bons hbitos, mais valem medidas mais freqentes, embora
de curta durao. No, porm, to rpidas que no dem para sentir o erro, e nem to
longas que faam esquecer a ligao com a falta, gerando irritao, que 
contraproducente.

Cumprindo com facilidade o que lhe sugerimos, sem se cansar, mas at sentindo que era
capaz de fazer mais, a criana aceitar com amor o trabalho de corrigir-se, estimulada a
novas tarefas, quando necessrio. Isto  vital para a correo.

11.)Esquecida

Tanto mais a criana recai, tanto maior necessidade tem de ajuda. recai porque a
tendncia lhe  muito forte, ou a vontade ainda muito fraca. No consegue andar
sozinha: precisa de nossa mo. Se, estendendo-lhe a mo, a empurrarmos, ela cair mais
depressa; se a magoarmos, ela recear nossa ajuda; se a irritar-mos, ela nos fugir.
Tanto mais freqentes as recadas, tanto mais ela deve ser estimulada.

Ora, nada  to desestimulante como lembrarmos as faltas cometidas, o nmero de
vezes    que     propusemos     emenda,    e    o     pouco     fruto   colhido.

Cuidaremos de cada falta como se fosse  primeira. Se a criana multiplica as faltas ou
retarda a emenda mais do que seria de esperar, tomaremos as necessrias medidas, sem
contudo     "amontoar    brasas    sobre     a    sua    cabea"     (Prov.     25,22).

Humilhada com as nossas alegaes, ela vir talvez a concluir que no se corrige
mesmo, que  intil lutar, caindo no desnimo que dificultar, se no impossibilitar, o
almejado                                                                          fim.

Devendo acompanhar a vida moral da criana, o educador no lhe pode esquecer as
faltas nem os esforos para corrigir-se, mas no lhe dar a entender que guarda essas
lembranas, no lhe falar do passado, dando a impresso de que o que passou est
esquecido.

E agir em funo desse "esquecimento", a menos que o passado se ligue diretamente
com               o              problema              do                momento.

Muito se aborrecem os educandos com a recapitulao de suas faltas, feita cada vez que
vo ser corrigidos.  natural: sentem-se envergonhadas. Os que julgam contribuir assim
para emend-los esquecem a fora pedaggica do otimismo. E no pesam quando
diminui com isso a confiana das crianas. E quando a confiana diminui, aumentam as
dificuldades da educao. Bem haja o educador que sabe manter a confiana das
crianas tanto nele quanto em si mesmas.
12.) Crist

 uma s, mas  infinita a diferena entre o pago e o cristo: - este  batizado. Assim 
tambm a educao. A crist faz tudo o que faz a leiga, e contam alm disso, com a
graa de Deus. A leiga se vale de todos os meios naturais e leva a criana at onde lhe
permite a fora humana; a crist continua a subida, amparada nos meios que Cristo
ensinou e instituiu para elevar o homem acima de si mesmo e conduzi-lo  perfeio. A
educao crist no contradita a leiga, mas a ultrapassa.

A correo crist contm elementos que a leiga ignora... quando queremos ensinar a
virtude - a mortificao, a pacincia, a justia, a prudncia, a fortaleza, a ajuda fraterna,
o respeito  lei e s autoridades, a pureza, a dedicao filial - l est o Cristo, vivo,
integral, perfeito.

E no  para ns apenas um exemplo:  a fora que nos ajuda,  o estmulo da
recompensa que no faltar,  o Senhor onipotente que nos pode alimentar no deserto
(MT. 14,15-20), salvar do naufrgio (Mt. 8,24-26), libertar do demnio (Mt. 12,22).

- Temos o recurso  orao, que os naturalistas ignoram.
- Temos a total confiana em Cristo, que s os que a experimentam sabem quanto  boa
e poderosa.
- Temos o exerccio da presena de Deus, que est em toda parte, "que sonda os rins e o
corao" (Sl. 7,10), que nos detm em face do pecado, como a Jos (Cf. Gn. 17,1), que
nos convida permanentemente  perfeio (Cf. Gn. 17,1), e cujo temor  o comeo da
virtude (Cf. Sl 110,10).

- Temos o exame de conscincia, poderoso elemento do conhecimento de si prprio,
sonda que penetra at o fundo das intenes, luz que ilumina o nosso ntimo e nos
mostra as causas e razes de nossos atos e os nossos mveis mais secretos, e que
nenhum educador deve dispensar, para si e nos educandos.

- Ns catlicos temos o contato vital com a Santa Madre Igreja, com o culto vitalizante
da Santa Missa, com a fora eficaz dos Sacramentos. Tudo isso eleva e doura a correo
que propomos. Tudo serena e se facilita, quando falamos em amor de Deus, para alegrar
a Cristo, para no "crucificar de novo o Filho de Deus" (Heb. 6,6).

O sobrenatural no tem lugar  parte em nossa pedagogia: como o sangue, ele se
difunde em todo o organismo; como a alma no corpo, ele est todo na educao crist e
todo em qualquer parte dela. S nos que o utilizamos sabemos quanto vale. Entre ns,
melhor o sabem aqueles que no o conheciam, mas se converteram e o empregam,
penalizados do tempo em que o no usaram, jubilosos das maravilhas que produz. Feliz
o que baseia a vida e a educao dos filhos no sobrenatural. Por grandes que sejam as
dificuldades, so sempre menores que as dos outros, e maiores os frutos. "Receber o
cntuplo e ter a vida eterna" (Mt. 19,29).

Estabelecer princpios

Talvez tenha ficado longa a exposio, e isto d a impresso de que  difcil a correo
dos filhos. Na verdade, tudo isto  conseguido harmonicamente. Fizemos trabalho de
anlise.  como o andar: fssemos explicar o mecanismo da nossa marcha, dificilmente
daramos um passo - contraia tais msculos, distenda outros, firme um dos ps quando
levanta o outro, assegure melhor o equilbrio adiantando o brao direito quando adianta
o p esquerdo... Por felicidade no se faz assim: anda-se simplesmente, e se faz tudo
aquilo, sem o perceber... Assim  com a boa educao.

Mas, para facilitar um trabalho de unidade, reduzimos tudo a poucos princpios, que no
demandem sequer explicaes:

1) Saber o que quer: fazer amar e procurar o ideal.
2) Querer com firmeza e continuidade.
3) Ver tudo, dissimular muito, corrigir o necessrio. (o termo dissimular na frase,
entenda-se como : fazer vista grossa sobre, deixar passar)
4) Ir s razes das faltas.
5) Manter a viso do conjunto.
6) Assegurar a confiana das crianas.
Modos de corrigir

Nossa preocupao  levar a criana a praticar a virtude, a fazer bem o que fez mal,
evitar a falta cometida, tudo na proporo de suas possibilidades pessoais. Para isto
aproveitamos as prprias conseqncias naturais da falta, quando estas se prestam ao
aproveitamento pedaggico ou empregamos outros meios proporcionados.

No primeiro caso, as aplicaes so variadas.

- Algumas, incuas: a criana adoece quando come chocolate; mas continua a com-lo
sempre que se lhe oferece ocasio. No tem fora de vontade para resistir.

- Outras irritantes, humilhantes, prejudiciais, vergonhosas at para os pais... a menina
remanchona, que no est pronta  hora da sada para o passeio, no vai passear; o
mentiroso no ser mais acreditado; e noutras: quem rasgou, por estouvamento, o
vestido novo, us-lo- remendado; quem estragou o caderno  toa, fica sem caderno.

- Outras, realmente proveitosas: a criana que se queimou, mexendo no aquecedor; a
que se feriu com os modos estouvados de brincar; a que foi expulsa do jogo pelos
colegas, porque perturbava, etc. No segundo caso, so muito conhecidos os modos de
correo, Vejamos.

1) Advertncias

Muito teis, porque previnem a queda: sempre melhor que remedi-las, sobretudo na
infncia. Justas, oportunas, rpidas, do bons resultados. (Ver: Jo. 13,8 ; Mt. 26,41)

2) Censuras

So necessrias, para formao do critrio moral das crianas ... No sendo censuradas
pelo mal que fizeram, podem reput-lo indiferente ou bom. Tambm elas sero, como as
advertncias, justas, breves, oportunas, e feitas com seriedade, a qual lhes  necessria,
mesmo quando forem enrgicas. (Ver: Mt. 26,40 ; Mt. 8,26 ; Mt. 14,31 e Lc. 24,26).

3) Elogios

Superiores  censura, preferveis portanto. Esta por melhor a faamos,  sempre
restritiva e deprimente, ao passo que o homem precisa de estmulos para a virtude, pois,
em geral, so poucos os nossos impulsos para ela. Enganam-se os que temem formentar
a vaidade, com elogios. Desde que justas e moderadas, que visem ao esforo (e no a
qualidades naturais, dons gratuitos de Deus), e que despertam entusiasmo para o bem,
confiana em si e amor ao ideal, antes importa us-los que tem-los.

Tambm Cristo os empregou em sua pedagogia, (Ver: Mt. 8,10 ; Mt. 25,23)

Sempre que o educando se esfora (mesmo que no alcance o xito desejado),  digno
de encmio. Principalmente quando est interessado em emendar-se: elogiemo-lo,
mesmo quando ele consegue apenas diminuir faltas, pois j  progresso.

4) Recompensas

Como tudo que estimula e desperta energias para o bem, so as recompensas elemento
valioso na educao. O seu fim  realar o valor do ato praticado e favorecer a sua
repetio. No somente podem, mas at devem ser outorgadas, dede que:

- contribuam para dar ao educando conscincia da obra que praticou, inclinando-o assim
a repeti-la;
- levem ao gosto ntimo do dever;
- ajudem a vencer os obstculos.

Para isto, procuremos evitar:

- recompensas que favoream as ms tendncias: mo dar gulodices aos gulosos,
enfeites s vaidosas, dinheiro aos esbanjadores, etc.;
- promet-las com freqncias - porque assim perdero a finalidade, e at a subvertero,
levando a criana a trabalhar antes pelo prmio prometido que pelo cumprimento do
dever;
- d-las com muita freqncia, no s porque isto a banaliza como tambm porque a
criana perde de vista o amor ao dever, passa a trabalhar pela recompensa, e pode at
desanimar quando no a receber.

Como gostamos de elogios e presentes, muito se alegram com eles os educandos. E
qualquer coisa os contenta, desde que no estejam viciados. De acordo porm, com a
finalidade pedaggica, procuremos os que melhor se adaptam s tendncias de cada um
- afetuosos, honorficos, instrutivos, artsticos, lucrativos.

s vezes, o que alegra a um, deixa indiferente ou decepcionado a outro.  necessrio
que a recompensa contente, porque despertando otimismo, ajuda e favorece no caminho
do dever...
Para que a criana queira corrigir-se  preciso que:

- saiba que tem defeitos - o que ela facilmente concede, porque todos neste mundo os
tm;
- saiba que tem tal defeito - o que  um pouco mais difcil, porque supe o
conhecimento de si e a humildade (que raro procuramos infundir nos educandos);
- reconhea que cometeu a falta - pois nada h mais revoltante para a criana e
sobretudo para o adolescente do que ver-lhe imputada uma falta que no cometeu ou
no reconhece como falta;
- esteja intimamente naquelas disposies de penitncia, a que acabamos de referir-nos;
- aceite a nossa ajuda.

Tudo isto supe o trabalho educativo lento, indireto s vezes, paciente, dirigido 
inteligncia e  vontade do educando. Nem sempre  fcil convenc-lo de que errou: ele
se coloca numa posio emocional, e no consegue enxergar o que lhe apontamos de
nosso ngulo lgico. Ento,  preciso que o compreendamos, para que ele nos
compreenda.

Quando alguns pais acusam o filho de "no querer nada", se este no  um anormal, a
culpa  deles:

- no o preparam desde cedo;
- contentaram-se com castigos (em vez da correo);
- no o levaram a conhecer-se;
- nunca lhe pediram uma atitude interior;
- nunca o mandaram examinar a conscincia em face de Deus;
- no lhe disseram as conseqncias de seu defeito;
- nem lhe deram os motivos profundos para emendar-se.

No  com gritos, humilhaes e castigos que levamos algum a querer o que
queremos...

Evitar a correo

Por positivo que seja o trabalho da correo, no fundo ele  negativo: houve uma falta a
emendar... Inteiramente positivo seria evitar a necessidade da correo. Se isto 
ilusrio, porque "os sentimentos e os pensamentos do corao humano so inclinados
para o mal desde a infncia" (Gn. 8,21),  possvel, contudo reduzi-la ao mnimo.  o
que consegue a slida formao da vontade, ajudada pela disciplina preventiva.
Isto  toda a educao, e no cabe neste fim de captulo. Aqui desejamos apenas deixar
aos pais cuidadosos a esperana, e dar-lhes alguns marcos que os possam orientar nessa
jornada.

Cultivar virtudes

Na terra virgem da alma infantil as virtudes medraro mais facilmente. Trabalho
agradvel e produtivo, ele poupar as dificuldades da correo.  medida que a boa
semente germinar, o joio que o inimigo lanar brotar sem seiva, mais pronto a mirrar-
se que a afogar o trigo. Para estimular virtudes, os pais encorajaro os esforos,
habituando a criana  fortaleza e  generosidade espiritual, preparando-a para as
vitrias contra as paixes, o ambiente e o demnio.

Comear cedo

Como as ms tendncias despontam muito cedo,  preciso madrugar com a educao
para a virtude. Diga  palavra que alarma os leigos: educao para a santidade. Antes
mesmo que a criana revele tendncias particulares, j devem ter sido canalizadas no
sentido da virtude aquelas que constituem a natureza e a herana de toda a humanidade.

Cuidem os pais:

- no fechem os olhos s manifestaes da alma infantil, a pretexto de que  muito
criana ainda;
- no temam ser exigentes e enrgicos;
- no se contentem com corretivos superficiais;
- no capitulem ante a presso de avs e tios que brincam com a criana como a criana
brinca com a boneca;
- no pensem em recuperar depois o tempo perdido: o melhor  no perder tempo;
- tenham pressa e firmeza em "ocupar todo o terreno" (F. Gay), a fim de que, quando os
vcios quiserem instalar-se, no encontrem lugar.
Educar para a liberdade

Amanh, essa criana inevitavelmente se libertar do nosso jugo, e ser dona de si
mesma. O essencial  prepar-la para fazer o bem por si, quando no tiver mais nossa
tutela. Para     isto    deve      saber     usar   bem      da    sua     liberdade.

Quem conseguir essa aprendizagem, educou, deu o gosto do bem, fez procurar a
correo... cuidem os pais de dar aos filhos esse gosto ntimo da liberdade e essa
capacidade de us-la para o bem. Na medida em que o conseguirem, evitaro a
necessidade de corrigi-los.
Organizar a vida da criana

Enquadrada em atos regulares e dirigida por uns poucos princpios fundamentais, ter a
criana enorme facilidade para evitar faltas.

A organizao dos atos pertence mais  me: faz parte do bom governo da casa. Ela:

- adestra a criana desde cedo;
- exige-lhe esforos na idade escolar;
- ensina o adolescente a dominar-se;
- orienta: a criana j sabe o que fazer, como fazer;
- cria hbitos;
- no deixa ningum ao lu, desperdiando tempo e energia, cedendo  ociosidade e 
anarquia;
- mas d a todos possibilidade de usar a prpria inteligncia e exercitar as foras
musculares, expandindo-se normalmente, sem as represses que a correo acarreta, por
melhor que seja.

Os princpios sero poucos, mas fundamentais: marcos para a vida. Normas simples e
claras, mil vezes repetidas no lar, mais em conversas do que intencionalmente, que
nortearo as aes agora ou no alto mar da vida. A forma positiva  sempre prefervel: 
melhor sabermos o que devemos fazer - e o que no devemos fazer vem como
conseqncia.


                                2- O AGITADO




Tem a criana maior necessidade de movimento do que o adulto. Andando, correndo,
subindo escadas, abaixando-se e erguendo-se, est dando ao organismo o
desenvolvimento que ele reclama. Ficaramos exaustos com a dcima parte do exerccio
que faz uma criana de 3 ou 4 anos; e nos cansamos s de v-la movimentar-se! Isto 
normal exigncia da idade, e no deve preocupar o educador. Pelo contrrio: este se
deve preocupar com a criana parada, quieta demais, indcio de doena ou anomalia.

A criana agitada

Diverso  o caso da criana agitada: j atingiu a idade escolar (7 a 11 anos), e no tem
um comportamento normal.

- sentada, mexe-se a cada instante, mudando de posio na cadeira;
- fala muito, muito alto e muito rpido;
- gesticula desordenadamente;
- quando no se cala um momento, assovia, cantarola ou tamborila nos mveis;
- tira os objetos dos lugares;
- anda aos arrancos, tropeando nas cadeiras e fazendo rudo com os ps;
- turba os jogos de que participa;
- provoca os irmos mais velhos e briga com os menores e com os colegas;
- puxa o rabo do gato e escorraa o cachorrinho;
- porta-se mal  mesa;
-  cheia de tiques (ri as unhas, coa-se com freqncia, pestaneja, funga);
- teima com os pais e no atende s ordens recebidas;
-  desarrumada no modo de trajar;
- posta de castigo, fica a fazer caretas e trejeitos;
- com tudo implica;
- destri os brinquedos e os livros;
- nada leva a termo, porque no tem perseverana em nada;
-  um constante turbilho.

(No tratada a criana, teremos mais um desses adultos que no param em emprego, no
conservam as amizades, mudam de casa com freqncia, no se penteiam,
desarrumados de indumentria, e que esto sempre a comear trabalhos que nuca levam
a termo).

 uma dificuldade conseguir que estude as lies e faa os exerccios escolares; levanta-
se dez vezes do lugar, finge necessidades, vai perguntar isto e aquilo  me, no aplica
as regras que aprendeu, no resolve os problemas (porque "no tem tempo" de
raciocinar).

E s consegue algum xito escolar, se  bastante inteligente e tem excelente memria.
Mesmo assim, os resultados no correspondem a seus talentos. De fato,  curta a
ateno que consegue dar aos estudos, como  breve o tempo em que se mantm
disciplinada.

Tipos de agitao

s vezes,  uma boa criana, apenas muito inquieta e indisciplinada.  desobediente,
mas por falta de foras para fazer o que se lhe pede e ela deseja. A indisciplina lhe vem
da incapacidade de parar, de dedicar-se  mesma tarefa por longo tempo, no, porm da
rebeldia ou insubordinao. Ela at gostaria de saber bem a lio e apresentar os
exerccios, para dar prazer  professora, de quem gosta; mas no o consegue.

Chamam-na indiscreta, porque fala tudo quanto sabe, sem medir convenincias, como a
chamaro desastrada porque quebra loua e mexe em tudo, e tudo quer saber  mas sem
malcia e com a maior inocncia do mundo.

Agita-se por necessidade de atividade intensa, barulhenta e constante, que s vezes tenta
moderar, sem consegui-lo. O seu dinamismo  superior ao comum das crianas  o que
indica alta voltagem vital, e justifica tambm uma evidente fraqueza da vontade em face
das tendncias, e denuncia falha dos educadores no seu encaminhamento.
Em todo caso, esta agitao  prefervel  calma adulta de algumas crianas, que agrada
tanto aos pais e mestres desavisados.

Outras vezes, porm, aparecem-lhe sinais de revolta, de dio e de vingana. J no 
uma criana simplesmente agitada e turbulenta: sua desobedincia  propositada, sua
indisciplina  insubordinada, suas destruies so vingativas so as dores e os desgostos
que provoca nos pais.

Causas da agitao

Quais sero as causas da turbulncia infantil?

Umas so mrbidas  orgnicas ou neuropsquicas  e compete ao psicopediatra
descobri-la e remedi-la. Para isto importa levar-lhe a criana, desde que ela se revela
excessivamente agitada...

Mais comum so as causas pedaggicas  fruto dos erros dos pais e outros educadores,
no tratamento afetivo e educacional da criana.
- se no  de unio e calma (mas de desajustamentos e atritos) o ambiente do lar;
- se o filho  ou mimado ou escorraado;
- se  tratado sem coerncia, com alternativas de carinhos e pancadas;
- se os pais no tm linha segura na educao dos filhos;
- se no esto de acordo na linha estabelecida (mas um permite o que o outro condena);
- se a criana se torna o centro das atenes de todos, exibida aos visitantes, chamando a
ateno sobre si, falando alto, interrompendo os adultos para se fazer atendida,
salientando-se, mostrando-se, comprazendo-se  no nos admiremos de que seja
agitada.

Pode acontecer que, julgando corrigir o filho agitado, os pais consigam apenas agravar-
lhe o mal. A represso exagerada torna-se to contraproducente como a ausncia de
correo. Os castigos fsicos, a carncia de proporcionadas relaes afetivas, as atitudes
severas dos pais, a segregao da vida social da famlia podem levar a criana 
turbulncia.

Tudo o que irrita, deprime e inferioriza leva tambm  turbulncia, aqui esto agravadas
com a revolta e o desejo de vingana. Pais e mestres cuidem de evitar zombarias,
humilhaes, injustias e comparaes odiosas que ferem profundamente o esprito
infantil e determinam reaes enrgicas.

 ento que a agitao se torna agressiva:

- no desejo de desenvolver-se normalmente, a criana investe contra os bices que se
lhe opem; a fim de projetar-se (como  natural que o faa), procura quebrar os muros
de que o cercam;

- sentindo que a diminuem, revoltam-se contra os "inimigos", odiando-os (consciente ou
inconscientemente), vingando-se deles (desgostando-os, satisfeita de v-los
contrariados, dando-lhes prejuzos, etc.), em transferncia fceis de identificar.
Ao contrrio da que  simplesmente agitada, e que lastima com isto aborrecer os
adultos, mas no consegue corrigir-se, a criana agressiva sente prazer no desagrado que
suas atitudes provocam...

Se por inferioridade  qualquer que seja: orgnica, afetiva, econmica, intelectual,
social, etc.;  a criana se v relegada a segundo plano, mas deseja aparecer, procura
chamar a ateno sobre si pela turbulncia, tirando-se do anonimato e salientando-se no
meio em que vive. Esta, contudo, no  sua inteno consciente. Evidentemente muito
se lhe agrava a situao, quando a agitao tem causas mrbidas e  pedagogicamente
mal tratada.

Tratamento

Indo certa senhora queixar-se a So Felipe de Nri que o marido, mal entrando em casa,
comeava as discusses, deu-lhe o santo uma garrafa d'gua de que ela devia ter sempre
cheia a boca, enquanto o marido permanecesse em casa. Garantiu-lhe que assim havia
curado vrios maridos. Pouco tempo depois recebeu o testemunho da ingnua, mas
obediente senhora, que lhe foi gabar a eficcia do remdio. O marido estava muito
melhor...
No se admirem os pais, se lhes prescrevemos remdios que eles devem tomar... para
curarem os filhos... No trato dos educandos, os orientadores educacionais, psicologistas
e assistentes familiares sabem que o melhor remdio para os filhos  a cura dos pais.

Como realiz-lo

Vejamos o que se h de fazer para corrigir os agitados.

Ambiente de calma.

- A vida domstica ser tranqila, sem discrdias nem desavenas, respirando-se
sossego e paz.

- Educadores e educandos falam em voz moderada, como gente civilizada, sem gritos
nem maiores alteraes, mesmo (e principalmente) quando seja necessrio corrigir ou
repreender.

Relaes calmas com a criana.
Essa calma os pais (e os adultos em geral) mantero, sobretudo nas suas relaes com as
crianas, e tanto mais tranqilos se mostraro quanto mais agitado for ou estiver o
educando.

Continuidade educacional.

- A fim de nortear com segurana a educao mantenham os pais (e os demais
educadores) a coerncia e a continuidade da ao educativa. Os menores, ainda os mais
calmos, ficam realmente desorientados, quando hoje lhes proibimos o que ontem
permitimos. O mesmo acontece quando o pai no admite o que a me autoriza (ou vice-
versa).
- Dem aos filhos uma liberdade razovel, conservando embora o cuidado de ver como
procedem. Liberdade excessiva leva ao abuso, sobretudo os que esto ainda em
formao. Mas proibies muito numerosas e exigentes enervam at os mais calmos 
quanto mais os agitados!

Exerccios ao ar livre.

- Crianas precisam (muito mais que ns) de atividades fsicas, jogos, correrias, ar livre.
Importa deixar-lhes campo a essas atividades, fornecendo-lhes local, brinquedos,
companheiros e tempo para que se exercitem.

Tratando-se de agitados, dem-se-lhes roupas fortes, brinquedos resistentes e
companheiros idneos, a fim de que possam descarregar os excessos de energia. Assim
mais facilmente lhes conseguiremos os necessrios momentos de calma para os estudos,
a orao, a vida social, etc., e ao mesmo tempo lhes proporcionaremos oportunidade
para o desenvolvimento de suas foras naturais.

 infundado o medo dos pais quanto a acidentes em jogos um pouco mais violentos.
Mesmo que aconteam (raramente), nada como uma experincia desagradvel, para
frear certos excessos.

Sono suficiente.

 preciso tranqilizar os agitados. Dormir cedo e acordar cedo lhes so mais
indispensveis que s demais crianas. Por muito calma que seja uma criana, terminar
nervosa e agitada, se s as 21 e 22 horas vai para o leito. s nossas seria til habituar a
pequena sesta depois do almoo (para regular a tenso nervosa).

Tarefas Tranqilizadoras.

Neste trabalho de tranqilizar, so meios eficientes:
- dar-lhes tarefas tranqilizantes, como coleo de selos, jogos de pacincia, palavras
cruzadas, etc.;

- habitu-los a ouvir msica (no sambas, e "msica" norte-americana), mas msica
verdadeira, harmoniosa, repousante, educativa; e encaminh-los para escolas de
msicas, grupos corais, ou para aprenderem a tocar algum instrumento de sua
preferncia.

Ouvir uma boa msica reclama silncio. Um samba ou um frevo, o menor acompanha, e
at sente necessidade de faz-lo batendo palmas, gingando ou tamborilando... na
educao da infncia, a grande pedagoga italiana Montessori ensina os pequeninos (4 a
6 anos) a fazerem silncio. Sua famosa "aula de silncio" nos faz falta a todos. H
numerosas pessoas incapazes de ouvir, porque no sabem calar. Mas, evidentemente, as
crianas devem ser preparadas pacientemente para gostar de msica e saber ouvi-la e
apreci-la.

- reduzir a audio dos chamados programas populares de rdio, to antipedaggicos
como excitantes dos nervos;
- no lhes permitir filmes e programas de TV, de aventuras, nem histrias de bandidos
(quadrinhos), sobretudo em prejuzo do sono;

- habitu-los ao trabalho normal, de acordo com a idade, sexo e gostos: a mecnica e a
marcenaria, to do agrado dos meninos. So muito indicados...

Amparo dos educadores.

Se para qualquer educando  de suma importncia que confie nos adultos que o
rodeiam, ainda mais o  para o agitado. Sua instabilidade precisa de um suporte: ele
deve saber que seus pais e mestres o amam.

Assim, devem estes:

- demonstrar-lhe afetividade moderada e compreensiva, sem recriminaes exaustivas,
sem conselhos demasiados (e irritantes), sem recomendaes desproporcionadas e...
contraproducentes;
- trat-lo com o amor e o carinho que do a todos os filhos;

- no lhe faltar quando ele for vtima da prpria turbulncia.

No seja o acolhimento que ento se lhe d um indulto para suas tolices, mas o
tratamento de que carece. Que ele sinta o amor, mesmo quando no goste das normas
que lhe so impostas. Deixe-se, porm, que ele o perceba, sem ser preciso dizer-lhe...
Quando sua confiana nos educadores for slida, ele prprio se acalmar, e s lhe ficar
de agitao o que for mrbido ou temperamental.


                                3- O COLRICO
Cada temperamento tem seus aspectos positivos e negativos. Ser pronto nas reaes,
sobretudo quando a segurana, a independncia, os gostos profundos so feridos, 
positivo, desde que o homem tenha sido habituado a servir-se de seus dons com
moderao.

A clera  um elemento de defesa, que Ribot liga ao instinto de conservao: toma a
ofensiva contra ameaas. Ai dos homens, quando no sabem mais indignar-se! Ai dos
que perderam a capacidade de encolerizar-se em face das injustias, das violncias, das
tiranias! Ai dos que se desfibram, se acomodam, se submetem ao injusto, aos
criminosos!

Desgraada educao, a que pretendesse tirar s crianas a reao ante o mal, a
capacidade de encolerizar-se ante a violao do direito e da moral.

A clera , s vezes, a nica forma de defesa. Em face de um "perigo", a criana que
no sabe ainda falar se manifesta pela clera: grita, chora, estrebucha para no ir com
pessoa estranha, para rejeitar o que no lhe apetece, ou para se livrar do que lhe mete
medo.

O seu mal so os excessos: na forma, na freqncia, na durao.

Infantilismo

Os que, no sendo crianas ainda se encolerizam com facilidade, chorando, gritando,
esperneando, batendo-se, mordendo-se, quebrando objetos, fazendo "cenas",
horrorizando a famlia e perturbando os vizinhos, podem ter outras causas de sua clera,
mas a primeira impresso que deixam  de infantilismo: apesar da idade, do tamanho e
do    resto,   conservam      reaes    infantis.   Tm     atitudes   de     crianas.

Do com isto palpvel demonstrao de fraqueza moral. Intelectualmente, quando lhes
faltam argumentos nas discusses, exasperam-se e gritam, procurando no excesso de
voz o que lhes falta em razes. Se algo desejam e no alcanam, rebentam em
exploses, para o conseguirem.

H outras causas

Supe-se sempre a predisposio para a clera, a fim de que as causas que apontaremos
produzam                     os                       seus                     acessos.

Sade

As hepatites, as colites, mau funcionamento do sistema digestivo e eliminatrio, como
tambm a fadiga e, ainda mais, o esgotamento inclinam os colricos a suas crises.
Juntemo-lhes as nevropatias, histerias e as predisposies epileptides, cada qual mais
sria.

Essas descargas furiosas - Sneca as comparou com uma loucura passageira - obedecem
s vezes a uma freqncia cclica, aparecendo ou intensificando-se em pocas certas.
A pessoa se apresenta ento mais agitada, loquaz, instvel, passando rapidamente de
alegria  zanga, inspirando cautelas porque a famlia sabe que est "nos seus azeites".

Emotividade

H crianas (e adultos) demasiado sensveis a impresses em si completamente
inofensivas. No compreendem (no podem ou no querem compreender?) que sejam
castigadas sozinhas: por que elas e as outras no? E no aceitam que s elas cometeram
a falta. Ou "estouram" porque a me as manda deixar os brinquedos, porque  hora de
estudar,                    almoar,                      ou                    dormir.

Outras se mostram hipersensveis ao que lhes parea humilhao: zombarias,
brincadeiras impertinentes, etc., sobretudo partidas de pessoas que lhes so antipticas.
Contrariadas        (ningum           percebe        por        que),        explodem!

Nem sempre essa emotividade  propriamente mrbida, mas acionada pelos freqentes
acessos de clera, e, cultivada pelo sujeito, assume aspecto de morbidez.

Angstias

Os que vo recalcando decepes, desgostos, frustraes podem chegar a um estado de
saturao, no qual tero maior facilidade de rebentar em cleras.

Vtimas de injustias repetidas e ostensivas, fraudadas em tantas promessas que lhes
fizeram e no cumpriram, entram algumas crianas em angstias terrveis - as
demonstram em acessos de clera, que nem sempre atingem diretamente aqueles que
elas                                desejariam                               atingir.

Carter

A clera pode ser usada (como todas as armas) corajosa ou covardemente, em combate
franco                                 ou                                 astucioso.

A criana (ou no-criana...) deseja dizer ou fazer certas coisas, e no tem a devida
coragem, em estado normal; mas no "acesso" diz e faz, realizando-se, satisfazendo-se. 
simples manifestao de fraqueza. Como quem bebe para ter coragem... Outras vezes, 
astcia: por meio de suas cenas de clera consegue o que de outro modo no
conseguiria.

Erro de educao

Nem queremos extirpar a clera (para no formar desfibrados), nem permitiremos que
ela prpria forme infantilizados.  isto, porm, que muitos pais no percebem, embora a
criana                                                                       perceba...

Com suas cenas de clera, ela alcana o que deseja da me, dos irmos, das
empregadas. Basta-lhe, s vezes, uma simples demora em ser atendida. Foi assim desde
pequenina. Habituou-se. Gostou.  a sua arma definitiva, o seu "abre-te, Ssamo".

Nunca lhe resistiram, nem procuraram corrigi-la. Garantida pelo erro dos educadores,
foi-se firmando. Tornou-se hbito. A emotividade supersensvel e cultivada, agrava-se
em repetidas crises, confinando com a histeria. E hoje, escolar ou adolescente, eis a o
colrico!

Como cur-lo?

Fazemos indicaes genricas, mas lembramos que cada caso exige terapia especial.

No terreno somtico

Se o caso  de sade, cuidemos dela:

- alimentao conveniente, exerccio fsico, ar livre, boa aerao em casa;
- trabalho moderado, para evitar fadiga e esgotamento; repouso suficiente, sono regular
com hora certa para deitar e levantar;
- ambiente calmo, evitando-se tudo o que possa excitar (ver o captulo sobre o agitado);
- e, quando necessrio, o mdico e os remdios.

Manter a calma

O grande remdio  a calma do educador. Pequenina que seja, a criana "entende" a
nossa serenidade, e no se autoriza com a nossa irritao. Mantendo a serenidade, pode
o educador observar bem a criana e refletir nas medidas a tomar, conforme o caso.

Irritando-se, ensina o que deve corrigir, impossibilita o entendimento, perde a
autoridade e, s vezes, tambm a medida.

E a energia

Seja essa calma plena de energia.

- Deixe a criana fazer a sua cena, at cansar-se e. repousar por si.

- Mostre-se desinteressada - realmente desinteressada, no fingidamente. A indiferena
 indicadssima. Quando a criana v que nem a olham, nem procuram saber se j se
acalmou, entrega-se com facilidade.

- No ceda. Cedendo, a criana percebe que este  o caminho para vencer. No cedendo,
ela compreende que no vale a pena... Seja paciente, mas inflexvel: no ceda!  preciso
que a criana compreenda que no  este o caminho a alcanar o que deseja. Mesmo que
seu desejo seja razovel, se o modo  a exploso de clera, - mais uma vez - no ceda!

Esperar a crise passar

No adiantam conselhos, carinhos, promessas, argumentos, durante a crise. No estado
em que se encontra, a criana perde a capacidade de compreender. As maneiras comuns
de denominar esses momentos so muito expressivas: "Louco de raiva", "Feito louco",
etc. Se lhe formos falar com carinhos, pensa que a tememos; se com conselhos,
acendem-se ainda mais; se com promessas, crem prximas a vitria; se com rigor,
pomos lenha  fogueira.
Depois, bem depois, tudo calmo e... esquecido, ento fale: argumente, aconselhe, mostre
que assim, longe de conseguir, dificulta os desejos.
No temer o colrico

 preciso mostrar que no teme as crises de clera. No as provoque o educador, mas
no as tema.

No as provoque:
- no negue sem causa o que a criana deseja:  errado negar agora, e ceder depois,
porque ela insistiu ou ameaou "cena";
- no exija o que no  necessrio: a autoridade deve poupar-se, e poupar a submisso
infantil.

No as tema:
- alm da indiferena quando o acesso for manso;
- use energia, quando a criana se pe a destruir seja o que for;
- prive-a do que ela destruiu (se isso no lhe faz falta essencial), ou a faa pagar de sua
mesada;
- castigue-a, quando ela bater em algum, nas crises.

Quando estas forem "estudadas", enfrente-as:
- se so armadas pela fraqueza, logo cedem;
- se so preparadas pela astcia, batem em retirada.

Evitar as crises

Procure evitar as crises. Observe as circunstncias em que elas costumam aparecer. E
procure, ento, com maior cuidado, afastar o que as deflagra: brincadeiras, zombarias,
desagrados...
O domnio de si

Toda a educao  encaminhada para dar ao educando o domnio de si: ou no 
educao. Desde pequenina, seja a criana orientada para o governo de suas foras
inferiores, para o domnio da vontade sobre os impulsos, para o exerccio da pacincia,
para a aceitao das demoras, recusas e privaes, para o controle de reaes muito
vivas, para saber dizer "no" aos estmulos anti-sociais, para a compreenso de medidas
desagradveis.

Ns que cremos em Deus, que temos as lies da Sagrada Escritura, e sobretudo ns
cristos no temamos apelar para o esprito de mortificao, ensinado por Cristo como
necessrio a seus discpulos: "Se algum quer vir aps mim, renuncie a si mesmo, tome
a sua cruz e siga-me".(Mt. 16,24), praticado e inculcado por So Paulo - "Castigo o meu
corpo e o reduzo  servido, para que no venha a ser condenado eu que preguei aos
outros". (I Cor 9,27) - encarecido em mil passos dos Livros Santos.

Ser proveitoso lembrar que o esprito de sacrifcio se ensina s crianas, mas no se
lhes impe. Imp-lo  v-lo rejeitado e abominado. Mas sugeri-lo e form-lo 
indispensvel                 ao                    educador                   cristo.
A educao no pretende eliminar os impulsos, apagar os instintos, extinguir as energias
naturais. Ela no quer fazer insensveis e ablicos. Pelo contrrio: quer formar homens,
homens de verdade, que vivem no esplendor de suas energias, mas sabem hierarquiz-
las,       submetendo-as               vontade        esclarecida       e      enrgica.

O homem verdadeiro sente os seus impulsos, mas sabe domin-los.
Isto se ensina s crianas, de modo prtico e vital; no se lhes impe.

Enganam-se os que pensam ser possvel, por golpes de fora, "quebrar a castanha" das
crianas "emproadas".  mais fcil quebrar toda a personalidade, fazendo um
desafibrado. Ou fazer canalizar noutra direo as energias barradas, levando o educando
a                                 caminhos                                  indesejados.

Na verdade, o educando  que se deve dominar. E o trabalho dos educadores  ajud-lo
nesta             tarefa            essencial             da              formao.

No caso em questo, importa conter as exploses de clera, e no as reaes em face do
que  injusto, imoral, agressivo. A capacidade de encolerizar-se fica, sendo, porm,
moderada, civilizada, canalizada por modos e para fins construtivos. Todos sabem que
os temperamentos ditos colricos so ricos de energia, solidez, tenacidade, e que, bem
educados, do excelentes empreendedores e lderes.


                           4- O DESOBEDIENTE




A mais freqente queixa dos pais sobre os filhos , sem dvida, quanto  desobedincia:

- "No obedecem";
- "D-se uma ordem, eles nem ligam";
- "Hora de dormir, ningum os tira da televiso";
- "Marca-se horrio para os estudos: no respeitam";
- "J se falou mil vezes que no cheguem atrasados para as refeies: no h jeito";
- "Estamos cansados de dizer que no deixem os objetos fora dos lugares: eles nem
escutam"; etc. etc.
Um enorme rosrio de lamrias, que terminam sempre por uma espcie de indulgncia
plenria aplicvel aos pais: "Essas crianas de hoje so muito diferentes das do meu
tempo."

E explicam:

- "L em casa duvido que um filho levantasse a voz para o papai!"
- "Ordem dada era ordem cumprida, gostssemos ou no."
- "Quem era louco para chegar atrasado para a refeio?"
- "Bastava um olhar do velho, ia todo mundo para a cama."
- "Ns sabamos obedecer!"

E encerram como num estribilho: "Mas essas crianas de hoje"...

De quem  a culpa

Lanando aos filhos a pecha de desobedientes, esto os pais, astuciosamente,
desculpando-se. Na verdade, no h diferena to grande entre as crianas de hoje e as
de antigamente.

As crianas so as mesmas, com as eternas caractersticas da infncia, os mesmos
interesses profundos, a mesma receptividade educacional, as mesmas exigncias de
afeto, de segurana, de formao. As diferenas dos tempos, superficiais, no lhes
atingem a estrutura. Nalguns pontos dificultam a obra dos educadores; mas noutros a
facilitam.

Alguns pais  que mudaram. Abandonaram os cuidados da educao, abriram mo dos
deveres, afrouxaram a vigilncia, fugiram  formao dos filhos, demitiram-se dos mais
sagrados encargos, capitularam ante as crianas, e se queixam de que estas so culpadas.

Tinham em mos a autoridade: perderam-na. Receberam a criana ao nascer - e no
crescida e deformada. Se no lhe deram a orientao devida, a criana  vtima, e no
culpada!

Se os antigos se faziam obedecidos a simples olhar,  que no se contentavam em ser
autoridade, mas sabiam ter autoridade: isto , manter a superioridade, que a prpria
natureza impe ao filho de forma to impressionante. Prova disto  que, ainda hoje, os
que tm autoridade conseguem os mesmos resultados de outrora, embora por meios
consentneos com os tempos.

Mas os tempos mudaram

No  possvel proceder hoje do mesmo modo que antigamente, agir com rigores, exigir
aqueles extremos. Mas tambm no  possvel largar os filhos a si mesmos, sob pretexto
de que a educao moderna exige liberdade, ou de que a me precisa de trabalhar fora,
para... dar melhor educao (?) s crianas, ou de que os pais que trabalham precisam de
repouso quando chegam  casa (e podem aborrecer-se (?) com problemas de crianas),
ou simplesmente por comodismo, "vida social intensa" e outras alegaes congneres.
H os que desejam acertar. Sabem que no se pode hoje educar como foram educados,
mas sentem dificuldade em adaptar-se aos novos moldes, pois no foram preparados
para isto. (Infelizmente continua o tremendo erro de no se cuidar da preparao dos
futuros pais. Mesmos os colgios catlicos ensinam mil coisas s jovens, mas no lhes
ensinam a ser mes, embora o desejo de casar lhes seja o mesmo de sempre.)

 com estes que desejamos conversar, para lhes oferecermos a ajuda que merecem,
pelas intenes que os animam.

Porque desobedecem

Os que desejam realmente corrigir os filhos procurem descobrir as causas das
desobedincias. Conhecida a causa, importa remov-la: tirada a causa, cessa o efeito.
Apontaremos algumas causas da desobedincia infantil.

A. Da parte dos pais:

- No tm autoridade;
- No sabem mandar;
- So muitas ordens, algumas impossveis;
- No velam pela execuo das ordens;
- Querem impor-se mais pela fora que pelo amor;
- No mantm coerncia, proibindo hoje o que permitiram ontem;
- Desentendem-se, um proibindo e o outro permitindo;
- Cedem, quando a criana se exaspera ou insiste;
- Mandam o contrrio para conseguir o que desejam;
- So implicantes, cansando e irritando as crianas;
- Exigem uma obedincia imediata;
- Querem levar a obedincia em excessos, humilhando a criana;
- No preparam os filhos para a obedincia;

B. Da parte dos filhos

- Falta de compreenso, prpria da idade;
- Fraqueza da vontade, que cede a interesses imediatos ou de ordem sensvel;
- Hbito de fazerem o que lhes  proibido;
- Repugnncia ao que lhes  ordenado;
- Aproveitamento das fraquezas do educador que:

a) cede com facilidade,
b) no pede contas do que manda,
c) ameaa, e deixa correr,
d) se desentende com os outros educadores; etc.

- Afirmao crescente de personalidade: passando da obedincia passiva de criana 
obedincia ativa (consciente) de adolescente, querem saber o porqu das ordens,
repelem as proibies injustas ou humilhantes;
- falta de preparao para a obedincia.
Para poder mandar

No basta ser autoridade, mas importa ter autoridade, para ser obedecido. Ai das
autoridades de quem  preciso dizer-se o que disse Cristo dos escribas e fariseus: "Fazei
o que eles dizem, no faais o que eles fazem" (Mt 23,3). Acima de tudo,  preciso pr-
se em condies de mandar.

Dominar-se

O educador h de possuir o completo domnio de si. Quem se deixa dominar de
qualquer sentimento ou paixo, perde a capacidade de comando: - isto vai de simples
domnio do temor fsico, passando pela timidez ou mera indeciso, at chegar ao seguro
controle das mais profundas e violentas paixes.

Saber usar da autoridade

   ponto    de    suma     importncia.    A    improvisao        m    conselheira.

Vejam-se os estgios do militar para chegar ao comando do exrcito... preciosa  neste
aspecto, a famlia numerosa, na qual os irmos mais velhos, delegados pelos pais,
exercem autoridade sobre os pequeninos.

Saber obedecer

 caminho e escola do bom exerccio da autoridade. S sabe mandar quem sabe
obedecer. Este preceito dos pedagogos  reconhecido pelos prprios educandos. Citando
John Ruskin, o grande Foerster ("Instrucion tica de la juventud") conta que ele,
discutindo com adolescentes de 14 e 15 anos sobre a obedincia voluntria, props
como tema: "Quem no aprendeu a obedecer, no sabe mandar." Os jovens frisaram no
estar em condies de dar bem uma ordem que no experimenta em si as reaes que
ela provoca.

Conhecer o que manda

 preciso ter experincia do trabalho pedido, do sacrifcio ordenado. E lembrar-se do
que lhe custou aquilo na idade que tm agora os filhos. Hoje nos  fcil (ou no ...)
passar uma hora calados, ficar sentados sem mudar de posio (o prprio reumatismo
ajuda...). Hoje fazemos tranqilamente servios que nos despertavam repugnncia aos
12 anos ou 15 anos.

Um educador no pode esquecer que j teve a idade que tm agora seus educandos. E se
esquecer, perdeu a capacidade de educar.

Conhecer os filhos

S quem os conhece pode lidar com eles. H as caractersticas gerais da infncia e da
juventude, com suas diferenas de idade e de sexo. Mas h tambm a psicologia desta
criana.
No existe a criana terica, ideal, de livro; existe a real, viva, com a qual vivemos, que
ouve as nossas ordens, que tem essas e aquelas reaes, com tal temperamento, e que o
educador deve conhecer muito bem, para se lhe poder adaptar.

Saber mandar

Para que suas ordens sejam bem acolhidas, devem ser dadas com bons modos. Do
contrrio, ficaro em casa como a rainha da Inglaterra, que reina, mas no governa.

Finalidade da obedincia

Com muita freqncia encontramos deplorvel equvoco sobre o sentido da obedincia.
Geralmente pais e at professores (formados em pedagogia!) querem  serem
obedecidos. Por amor prprio, por autoritarismo, para ficar em paz, - pouco importa! -
querem  ser obedecidos. Prontamente, sem explicaes e sem delongas.

- A verdadeira obedincia  aprendizagem do domnio de si - fim da educao. 
enriquecimento moral, aproveitamento da experincia dos educadores para facilitar aos
educandos os caminhos do futuro, sabedoria de quem aproveita um guia para evitar as
erradas, cuidado do comandante que entrega o navio ao prtico dos mares perigosos.
Por isso diz a Bblia que sero vitoriosos os que sabem obedecer: "O homem obediente
cantar vitria" (Pv. 21,28).

-  liberao: o homem se liberta das amarras do amor prprio e do orgulho, para
reconhecer e acatar a autoridade. No cede por medo ou interesse, mas age
conscientemente, superando-se, dono de sua vontade at para abrir mo dela quando
necessrio.

-  mestra da vida. Se a vontade  fraca, ampara-se na obedincia consciente e se
fortalece. Se estreita, desenvolve-se. Se impetuosa, amansa e se canaliza para o bem.

- Ela no  virtude de criana, mas de homens feitos. s crianas importa ensin-la,
orientando-a cuidadosamente para seu fim.

Algumas normas

Alguns marcos, para guia dos educadores de boa vontade, - graas a Deus, numerosos.

Obedincia  meio e no fim

No exijo obedincia, para que a criana seja obediente, mas para que se eduque.
Adiante mostrarei que o fato de ser apenas obediente constitui grave perigo para o
educando.

A obedincia se orienta para a educao: ensina a criana a usar bem da liberdade. Vai
afrouxando, na medida em que o educando cai aprendendo a orientar-se sozinho. Ser
eliminada, quando ele se tornar "governador de si mesmo", na feliz expresso de
Guimares Rosa.
O papel do educador  orientar, ensinar os caminhos, ajudar a marchar, retificar em caso
de errada, estimular para o autodomnio, "como a guia que provoca seus filhos a voar,
esvoaando sobre eles" (Dt. 32,11). E tanto mais feliz se sente quanto mais percebe que
se vai tornando dispensvel.

Levar a criana a submeter-se, e no submet-la

Quando me submeto, pratico ato livre, consciente; quando sou submetido, no: fui
subjugado. No primeiro caso, obedeci; no segundo, fui domado.

Obedecer  querer o que outrem quer, e no fazer o que outrem manda. A obedincia 
ato da vontade que sabe vencer as dificuldades para querer. Por isso, a verdadeira
obedincia  filha da liberdade. Mas comea sendo me da mesma liberdade; isto ,
preparando a criana para saber ser livre, para dispor de sua vontade, para dominar-se e
inclinar-se no sentido em que a razo a chama (e no no sentido em que as paixes a
empurram).

Como se v, obedincia implica o autodomnio. Est muito longe de ser o domnio que
o educador exerce sobre os educandos. Mas este conceito, policial e totalitrio, ainda 
muito corrente, e continua fazendo a infelicidade dos educandos.

Nunca devemos perder de vista que o exerccio da autoridade visa aos sditos no aos
superiores, porque busca o bem moral daqueles, e no a satisfao destes.

O educador no deve impor a sua vontade, mas sim formar a do educando.

So pessoas distintas, com vontades distintas, com gostos diversos ou at contrrios.
No devo proibir-lhe algo "porque no gosto disso", mas porque isso no deve ser feito.
No posso substituir sua vontade pela minha; mas devo form-la para que ela saiba
querer o bem e lev-lo  prtica.

Pensssemos melhor nesta verdade (alis, to solar), e seramos mais positivos que
negativos em educao, ensinaramos mais o que se h de fazer que o que se h de
evitar, daramos antes normas de vida que proibies.

A criana exige mais desenvolvimento que restries

 ser em crescimento: deve realizar-se. Montessori disse muito bem: "A educao 
ajuda positiva  expanso normal da vida". No  proibindo a criana de agir que a
desenvolveremos; mas ensinando-lhe a fazer o bem.

Nosso papel  canalizar-lhe as energias, e no reprimi-las.  apontar-lhe os caminhos, e
no impedir-lhe a passagem.  ensinar-lhe a querer, e no a no querer.  dar-lhe meios
para realizar-se fsica, sentimental, cultural, moral e religiosamente - pondo-a no
caminho do homem integral.

No  dizer-lhe: "Fica quieta", mas dizer-lhe "Realiza-te"...no  cortar-lhe as asas, mas
ensinar-lhe a voar.
                            Qualidades da obedincia
Consideremos agora as qualidades da obedincia ideal. Ela ser:

a) racional: no cega, mecnica, servil, mas entendida nas suas ordens e nos seus
motivos, a fim de que sua execuo seja um ato humano, e no atitude de animal
amestrado;

b) digna: compreendida, espontaneamente aceita, deliberada pela vontade que quer ser
livre; ela no me desfaz, e sim me afirma a personalidade; no me avilta, mas me
engrandece; no me torna carneiro de rebanho, mas homem que dispe de si mesmo; 
mostra de liberdade, no de servilismo;

c) confiante: anota Gttler ("Pedagogia sistemtica") que a obedincia supe "um
respeito ntimo... s ordens das pessoas revestidas de autoridade, uma venerao aos
superiores de qualquer categoria, enquanto eles representam as autoridades que regem a
vida das sociedades"; esse respeito, essa venerao estabelecem a confiana que inclina
 aceitao fcil das ordens recebidas, mesmo quando no se lhes conhea a razo ou
no se lhes percebe o alcance;

d) alegre: racional, digna, confiante, a obedincia ser alegre, sem constrangimentos
maiores, sem murmuraes e revoltas, sem medos nem desgostos, mas fcil e at
espontaneamente pronta;

e) sobrenatural: ns, que cremos em Deus e para Ele encaminhamos a vida e a
educao, tudo devemos fazer em vista da eternidade, ainda que sejam as aes mais
quotidianas atividades (Ver I Cor. 10,31); ns, que sabemos que "todo poder vem de
Deus" e que "resistir  autoridade  resistir a Deus" (Rm 13,1-2), devemos obedecer
com essa viso sobrenatural: ela ultrapassa os homens e nos prende a Deus, garantindo-
nos que teremos sempre a recompensa de nossa submisso, desde que as ordens
recebidas no contrariem diretamente aos Mandamentos divinos ou aos ditames de
nossa conscincia.
Preparar a obedincia

Embora estejam os filhos obrigados  obedincia, no o podemos exigir do mesmo
modo a todos. Impe-se a discriminao, devida  idade e s circunstncias individuais.
A idade  que primeiro se apresenta.

- Na primeira fase ser apenas o adestramento. Incapaz de compreender, a criancinha
aprende a fazer o que a mame manda, e a no fazer o que ela probe. Vai-se habituando
a atender  mame, que lhe falar sempre com carinho, s vezes com firmeza, at
estabelecer os hbitos.

Com 18 a 20 meses, j "compreende" algumas razes, que lhe so dadas: "est
molhado", " sujo", " do irmozinho", etc. Antes dos 2 anos, se ela foi encaminhada
assim, basta-lhe um olhar ou um gesto para retirar a mozinha.

Esta , irremediavelmente, a fase da obedincia cega, em que o nico verdadeiro motivo
 a vontade do educador. Embora  maioria dos pais parea sem importncia, reputam-
na os modernos psiclogos a idade decisiva na vida do homem - como o alicerce para a
casa. E cometem falta, s vezes irreparvel, os que a desperdiam, deixando para mais
tarde o que ento deve ser feito. Depois ser preciso desfazer maus hbitos, para iniciar
os bons - o que representa multiplicado trabalho e precrios resultados.

- Na segunda fase comeamos a dar as razes de modo mais explcito, porque cresceu a
capacidade de compreenso. E o educador que se preza quer estabelecer a obedincia
consciente. "Falem mais baixo, porque a mame est repousando". "Vo brincar l fora,
porque a vov est doente". "Desliguem o rdio que est perturbando o estudo do
papai."

No podemos dizer ao certo quando comear esta segunda fase. A criancinha passar
logo para a idade do no, que repelir sistematicamente o que lhe mandarmos ou
pedirmos. Mas, em seguida, apelaremos para a compreenso da criana: "Voc no
compreende que no pode brincar na chuva?"

O fato de compreender no significa que se renda. Compreende, mas quer ir assim
mesmo. Ou tem dificuldades especiais para compreender: "Como  que Pedrinho est
brincando?" Ou: "Como  que os homens trabalham na chuva, e no adoecem?"

Esta frase exige bastante pacincia ao educador, para que ele:

- no descambe para o autoritarismo ("; mas voc no vai porque eu no quero"),
- no caia na discusso de igual para igual,
- ou seja derrotado, "por pontos" ("Pois, ento, v; e me deixe em paz").

- Na terceira fase, se os passos anteriores foram seguros, o pr-adolescente e o
adolescente atendero s indicaes dos pais, e o trabalho de persuaso, prprio da
etapa anterior se reduzir aos casos especficos da idade.  verdade que os surtos de
independncia so mais fortes, mas os pais compreensivos proporcionaro as ordens e
restries ao desenvolvimento do comportamento moral e social dos jovens.
- Henri Pradel, no excelente estudo sobre a obedincia ("Comment former des
hommes"), que me fornece vrios elementos deste captulo, caracteriza essas frases por
trs frmulas: "Eu quero", - " preciso", - "Tu deves." Podemos tambm caracteriz-la
por trs verbos: Mandar, persuadir, indicar.

A criana que tiver sido bem trabalhada na primeira fase estar excelentemente
preparada para obedecer nas demais.

Facilitar a obedincia

Os pais gostam de ser obedecidos, mas os filhos no gostam muito de obedecer. Para
deles conseguirem mais fcil virtude, cuidem os pais de melhorar os mtodos de
comando. O exerccio da autoridade  uma cincia e uma arte; tem seus princpios e sua
tcnica. Os que as conhecem facilitaro as prprias tarefas e as dos sditos. Quem sabe
mandar  mais facilmente obedecido.

Vejamos, ento, algumas normas de comando pedaggico.

1 norma: Mantenha a autoridade

Para isto:

a) acredite-se junto s crianas:
- fale com a superioridade de pais sobre filhos, na convico de que no est apenas
exercendo um direito, porm cumprindo um dever;

b) d ordens:
- No pea favores, pois a sua autoridade se impe pela natureza;
- os prprios sditos gostam de ser comandados com autoridade: os judeus admiravam
em Jesus que Ele falava "como quem tem autoridade, e no como os seus escribas e
fariseus" (Mt 7,29);
- no discuta com os filhos: isto aniquila a capacidade de mando;

c) fale com firmeza:
- a timidez de quem manda sugere a possibilidade da desobedincia;
- vendo-se temida, a criana se reputa superior, e no atende;
- uma autoridade fraca no recebe acolhida nem confiana dos sditos;
- no recue facilmente da ordem dada (a menos que tenha visto seu erro), nem ceda a
pedidos, carinhos ou lgrimas (alis, quando as crianas sabem que  intil insistir, no
insistem);

d) assegure a autoridade alheia:
- nada  mais prejudicial  autoridade do que a falta de unio entre os pais - um probe,
outro permite; um ordena, outro dispensa; um corrige, outro relaxa; ou se desentendem
sobre o regime de educao,  vista das crianas; ou entram em contradio com os
mestres e o colgio.
2 norma: Seja prudente em mandar

Do contrrio, a autoridade se compromete, os recuos se impem, e as crianas
encontraro pretextos para desobedecer. Tome, pois, cuidado:

a) pense as suas ordens:
- nada de precipitao, que obrigue depois a recuar ou (pior ainda) a fazer vista grossa;
- no ordene o impossvel ou sumamente difcil;
- no proba o que as crianas nem sonhavam fazer (Pode ser isso uma sugesto 
obedincia. Ex: Tendo ganhado um instrumentinho de carpinteiro, o menino - 7 a 8
anos- fizera uma devastao em casa. Indo sair, a me, imprudentemente, lhe
recomenda que, em sua ausncia, poupe ao menos a moblia da sala.)

b) seja oportuna:
- escolha o momento mais propcio  obedincia;
- respeite a idade, o temperamento, a curiosidade, o interesse momentneo da criana.

c) no ponha tudo no mesmo plano:
- nas recomendaes s crianas, h ordens que a autoridade impe, h conselhos que a
experincia d, e h pedidos que a amizade ou a boa vizinhana fazem: no podem ser
postos no mesmo nvel, pois a ordem  para ser cumprida, enquanto o pedido e o
conselho ficam  generosa receptividade da criana...

- no ponha tambm no mesmo plano o que  contra a moral, o que  contra as boas
maneiras, e o que no lhe agrada. (h pais que deixam passar princpios e atos contra a
moral, que toleram a at autorizam graves pecados contra a religio e a justia mas no
suportam pequenas faltas que lhes desagradam...)

3 norma: Fale pouco

a) Mande pouco:
- mande apenas o necessrio, e no mais, para no estafar as crianas, no desanim-las,
no irrit-las nem ensinar-lhes a insubmisso;
- no faa muitas proibies, mas se restrinja ao indispensvel, para no limitar demais
a criana, que antes precisa aprender o que deve fazer e no o que lhe  proibido. Ex: 
comum ouvir-se a me "educando" o filho: "Anda direito menino". - "Levanta essa
cabea". - "Conserta a camisa". - "Olha pra frente". - "Puxa essa cala pra cima". - "No
arraste a cadeira assim". E dez mil outras recomendaes dirias.

b) seja breve e claro:
- uma ordem longa ou confusa ser, na certa, esquecida, confundida ou deixada; Ex: A
me pergunta: "Quem de vocs quer deixar o jogo um instante, levantar-se da cadeira e
ir fechar aquela porta da saleta, que est batendo com essa ventania?" A turma
continuou firme no jogo. A ordem devia ter sido dada assim: - Pedro v fechar a porta
da saleta.

- palavras rpidas e seguras, suficientes para dizermos o que  necessrio, sem mais nem
menos;
- fale de modo preciso e concreto, pois as recomendaes vagas so quase sempre
perdidas
- quando for necessrio, porque a criana est um pouco longe, ou porque animado o
grupo em que figura, chame-a pelo nome, e s lhe d a ordem quando se tiver
assegurado da sua ateno.

c) fale pelo gesto e pelo olhar:
- certos deveres de rotina demandam apenas um lembrete - um pequeno gesto, um olhar,
um movimento de cabea, um mexer de superclios - e as crianas compreendem que 
hora de ir para o estudo ou para o leito, que devem moderar a voz, mudar de posio,
etc.

4 norma: Mande com bons modos

a) Fale sempre delicadamente:
- mais se obedece ao modo e  pessoa do que s ordens;
- a delicadeza vai muito bem com a firmeza e com a prudncia;
- o sentimento do brasileiro repele a grosseria, que fica mal em todos e especialmente
num       educador,    e    no     tem     cabimento      entre    pais    e     filhos;
- no pense que a delicadeza lhe diminuir a fora moral; antes a aumentar: as crianas
no a confundem com fraqueza, e o agrado que ela desperta inclina  obedincia e
acredita a autoridade;
- quando o educador costuma fazer-se obedecido, a frmula pode ser de splica, e as
crianas a entendero devidamente: "Querem fazer o favor de falar mais baixo?" ;
"Querem ter a bondade de recolher-se?"...

b) Evite humilhaes:
- elas irritam as crianas, e ante predispem  revolta que  obedincia;
- no faa comparaes deprimentes ("No faa essas caretas: fica parecendo um
macaco");
- no diminua a criana na presena de adultos;
- elas irritam as crianas, e antes predispem  irmos (ficaro zombando dela), nem em
face de si mesma (pode lev-la  revolta ou  inferioridade);
- no tripudie sobre a rendio do desobediente ("Conheceu, bichinho?" - "Eu sabia que
voc tinha de se render!"...);

c) procure captar a confiana:
- a confiana recproca facilita os caminhos da obedincia;
- abra sempre um crdito de confiana  criana, qualquer que seja a situao;
- mesmo que a prudncia aconselhe uma vigilncia mais estreita, retire-lhe sempre o
aspecto de espionagem;
- no insinue a mnima possibilidade de desobedincia, mesmo em se tratando de
reincidente que certamente cair de novo.

d) ajude a obedecer:
- estimule a criana ao cumprimento da ordem recebida;
- quando o trabalho for mais difcil ou inspirar especial repugnncia  criana, comece-o
com ela;
- no compre obedincia com promessa (a no ser em casos rarssimos, para salvar
situaes extremas, em que o filho s a isso se mostrasse sensvel): esse comrcio ilcito
mais parece suborno;
- no faa ameaas: so perigosas  educao; feitas em geral apaixonadamente, podem
deixar-nos no desagradvel dilema de cumpri-las (fazendo injustia  criana, por seu
demasiado rigor) ou no cumpri-las (e desmoralizar-nos), e levam tambm a educao
para um terreno que no  desejvel;
- recompense a obedincia, quando ela demonstrou maior esforo ou maior perfeio:
os estmulos do alavancas que removem os obstculos mais pesados.




5 norma: Vele pela execuo de suas ordens.

a) Mantenha a continuidade:
- Nada mais proveitoso  educao do que um rumo certo e a firme determinao de
segui-lo: a coerncia d unidade ao trabalho educativo, emprestando-lhe maior vigor e
eficincia;
- baseie a educao em princpios, repita-se com freqncia na presena dos filhos
(melhor do que a eles diretamente);
- evite dar ordens e contra-ordens nascidas do capricho ou do humor (da "lua", da
veneta, ou dos "azeites", como dizem as crianas, que nos conhecem melhor do que
imaginamos);
- no recue das ordens dadas, a menos que tenha verificado sua improcedncia ou nmia
dificuldade, ou que de fato novo a tenha tornado dispensvel ou contra-indicada.

b) No desanime:
- educao  trabalho de pacincia, no se realiza a jato, mas a passo e passo, com
avanos e contramarchas;
- o educando no pode desanimar, muito menos ainda o educador;
- reanime a criana que cair, e no deixe de aquec-la  chama das prprias vitrias, por
pequeninas que sejam;
- no h crianas normais incorrigveis, e as anormais tm direito a todos os nossos
esforos e cuidados;
- quanto mais difcil a criana ou o caso, mais necessrias a pacincia e a tenacidade.

c) Pea contas das ordens dadas:
- esquec-las  vot-las ao fracasso, pois as crianas sabem que no sero argidas a
respeito;
- entre a espionagem e o descaso est a vigilncia, de que quase todos os homens
precisam, e as crianas de modo especial, porque so caracteres em formao;
- o cumprimento das ordens pode ser verificado diretamente pelo educador, pois 
direito e at dever seu, mas convm pedir contas ao prprio educando, a fim de
despertar-lhe o esprito e mant-lo em brios.

d) Exija at o fim:
- no transija com a desobedincia, uma s vez que seja, para no insinuar fraqueza, de
que se aproveitaro as crianas;
- no aceite meia tarefa, quando a pediu inteira, pois j esta meia desobedincia 
caminho para a desobedincia total;
- se o trabalho era condicionado a algum ato, no houve vlida causa escusaste,
considere desobedincia o descumprimento do prazo;
- se o trabalho era condicionado a algum ato, este no se realizar sem aquele: "Faa
este servio antes do almoo" - e a criana s almoar quando o tiver feito!

6 norma: Seja compreensivo

a) Pense na criana:
- ela  instvel, de imensa mobilidade;
- o pequeno desenvolvimento da inteligncia no lhe permite maior capacidade de
reflexo - e no pesa o que faz;
- a vontade em formao  ainda fraca, e ela  tangida pelos instintos e pelo impulso dos
interesses imediatos;
- seus horizontes limitados no lhe permitem ver longe, e ela mais se preocupa com o
presente que com o futuro, mais com o pessoal que com o geral, mais com os prazeres
que com a moral;
- as grandes foras que movem os espritos verdadeiramente adultos deixem-na fria e
imvel, porque ela ainda no sente a beleza do dever, da conscincia, da dedicao ou
do sacrifcio;

b) Saiba ceder:
- erros de criana no podem ser julgados com rigor;
- suas responsabilidades so limitadas  sua capacidade: ela  uma criana;
- se ela errou, pese as causas de seus erros antes de pensar em puni-los;
- lembre-se que um motivo que para ns  ftil ou inexistente, para ela  irresistvel.

Ex: Pequeno de 9 anos chega-me apavorado. Sara de casa para a Missa das 11, a ltima
que ento havia na cidade. Juntou-se aos meninos que acompanhavam um camel de
circo, e, quando caiu em si, estava no outro extremo da cidade. Correu para a igreja,
mas a Missa terminara. Seria castigado em casa, se contasse singelamente a verdade. E
o pior de tudo: o pecado mortal de ter faltado  Missa! Nunca lhe esquecerei a expresso
de alvio quando lhe disse que no pecara (perdeu a Missa sem querer) e lhe propus
telefonarmos  mame que ele almoaria comigo. Aquela senhora, que mal lanaria um
curioso olhar para o homem de pernas de pau, dificilmente compreenderia que ele
arrastasse invencivelmente o seu filho por duas horas de caminhada a p. No  uma
pena essa incompreenso em pessoas to bem intencionadas?

- pense nas limitaes da criana, nas tolices da idade;
- tratando-se mesmo de adolescentes, lembre-se de sua imaturidade, da facilidade
porque se deixam levar por companheiros, da incapacidade para julgar idias e pessoas,
da tendncia em ceder  vaidade e aos brilharecos;
- faa o possvel para no esquecer do tempo em que foi tambm criana e adolescente:
quando o esquecemos, no podemos mais ser educadores;
- tenha a humildade de recuar, se percebe que errou, mesmo que o erro tenha sido
apontado pelas crianas; reconhecer o erro  grande atitude moral;
- e quando ceder, ceda clara e generosamente, confessando que se enganou, no viu o
aspecto que as crianas apontaram, que no quer impor um erro aos filhos - faa como o
general vencido: tire a espada e a entregue ao vencedor, e crescer no conceito dos
educandos.

7 norma: Apie-se em Deus

Aqui est uma norma preciosa, que, infelizmente, muitos educadores esquecem.
Nenhum daqueles que crem realmente em Deus ... podem menosprezar to poderosa
alavanca de toda a educao, e particularmente da difcil virtude da obedincia. 
precisamente num cntico que fala da prosperidade da famlia que o salmista diz: "Se o
Senhor no edificar a casa, em vo trabalham os que a constroem" (Sl 126,1).

Apoiar a obedincia em Deus  encaminhar a criana para:

a) Obedecer a Deus:
- aqueles que exercem autoridade fazem-no em nome do Senhor, de quem procede todo
poder de homem sobre homem: a cada um deles aplicaremos com verdade a palavra de
Cristo a Pilatos: "No terias poder sobre Mim, se no te fosse dado do alto" (Jo 19,11);
- "autoridade" vem de "autor": se os pais so os autores de seus filhos, Deus  o Autor
de todos os homens e de todas as coisas - foi Ele que deu aos pais o poder de gerar e o
dever de educar os filhos;
- os que mandam, no s o fazem em nome de Deus, mas devem tambm faz-lo para
glria de Deus;
- e os que obedecem, mais obedecem a Deus de que aos homens, e mais devem
submeter-se por motivos sobrenaturais que por motivos humanos;
- os que se habituam a ver nos homens o poder de Deus (o que no  fcil), obedecero
humildemente, mesmo quando os superiores so antipticos ou indignos do cargo: no
queremos dizer que estejam os pais lembrando aos filhos essas verdades cada vez que os
mandam fechar a porta ou desligar o rdio, mas sim que os impregnem desse esprito
sobrenatural que facilita e dura toda a vida moral.

b) Recorrer a Deus:
- disse Louis Venillat que anda mal o mundo porque os homens ficam mais em p do
que ajoelhados;
- consultado o grande Windhorts por uma senhora cuja vida domstica andava
periclitante, perguntou-lhe se no tinha em casa um genuflexrio, e ela lhe respondeu
que sim, mas estava velho e sem uso: "Pois  isto que falta a seu lar: voltem a us-lo, e
tudo serenar";
- os pais deviam mais falar dos filhos a Deus do que de Deus aos filhos;
- quando os filhos se perdem, procurem-nos no genuflexrio que os encontraro, como
Santa Mnica encontrou Santo Agostinho;
- quando os filhos tiverem dificuldades, orientem-nos para a orao, lembrando-lhes as
promessas de Cristo a quem orar;
- quanto mais difcil acharem a obedincia tanto mais devem rezar a Deus: "Pedi e
recebereis" (Jo 16,24);
- encaminh-los para o amor de Deus como supremo mvel de seus atos;
- pr-lhes na mente a vida de Cristo, como modelo a seguir;
- habitu-los tambm a esperar de Deus as recompensas: as que se esperam dos homens
falham a cada instante, mas as divinas so infalveis.

c) Examinar-se diante de Deus:
- se os homens nos interrogam, podemos (s vezes at devemos) negacear, quando so
indiscretos ou injustos;
- quando nos acusam, nosso primeiro movimento  de defesa;
- mas se somos ns prprios que nos interrogamos, e o fazemos em face do Senhor "que
v o que  oculto" (Mt 6,6), ento  natural que aparea a verdade; sumo valor
pedaggico, que os bons educadores nunca deviam dispensar;
- habitue seu filho a examinar,  noite, o dia que viveu, pedindo a luz divina para
conhecer-se, relembrando o que fez de bom (para agradecer a Deus) e de mal (para
pedir perdo e propor emenda), procurando as causas e as intenes de seus atos bons
ou maus;
- dificilmente continuar desobediente, mau filho, mau estudante aquele que for fiel ao
exame de conscincia;
- os catlicos acusem na Confisso as desobedincias, pois a confisso inclina 
correo, e a absolvio outorga a graa que muito ajudar na emenda.
Os desobedientes

Empregados todos os meios indicados, haver ainda os desobedientes. So naturalistas e
utpicos o que, como Robin ("L'enfant sans defauts"), afirmam que a desobedincia
infantil no tem expresso em si, e deve ser atribuda  doena da criana ou aos errados
processos                   educacionais                     da                  famlia.

Reconhecendo a grande freqncia destes fatores no pensemos, contudo, que sejam as
crianas uns anjos cados do cu... So filhos de Ado, com os percalos da pobre
humanidade, e descendentes de suas famlias com a carga hereditria de geraes e
geraes. Ingnuo, pois, quem as quiser reputar anglicas ou atribuir-lhes a sabedoria,
de que o prprio Salomo nos deixou mais teoria que exemplos. Falta-lhes o senso para
acatarem ordens, ainda as mais ricas de bom senso. Mingua-lhes a viso, mesmo
quando se trata de seus melhores interesses presentes e sobretudo futuros.

Claro que os pais cuidadosos e avisados reduziro muito as desobedincias dos filhos,
mas s por exceo as eliminaro nalgum deles.
Outras indicaes

J dissemos muito a respeito das causas de desobedincia. Faamos, juntos, novas
consideraes.

A correo  lenta

Faz-se aos poucos atravs de muitas recadas, mesmo na vida dos santos. Empenhados
em corrigir-nos de um defeito, quantas vezes tornamos a comet-lo? A Imitao de
Cristo nos adverte: "Se cada ano corrigssemos um s vcio, dentro de pouco tempo
estaramos perfeitos". No entanto somos adultos e decididos  correo.

Que diremos ento dos que esto em formao, fracos de convices morais,
fraqussimos de vontade? Ainda os melhores recairo muitas vezes.  comum
desculparem-se: "Foi sem querer". Os que no os acreditam vejam-se a se afligirem das
prprias faltas: "Ih! E eu tinha prometido a Deus no fazer mais isto!"

Crianas precisam de nossa pacincia e ajuda. A compreenso que nos pedem  esta.
No sejamos mais exigentes com as crianas do que conosco! Lembremo-nos de que a
verdadeira obedincia no  fcil: deixar de querer o que queremos para querermos o
que o outro quer! Fazer o que o outro quer  mais fcil: mas esta no  a finalidade do
educador, nem isto pode content-lo. Os que se impacientam caem no erro de preferir a
submisso  obedincia.

Seja constante a ajuda

No se impaciente com a criana, mesmo que a falta seja propositada. Mantenha a
calma, e exija de novo o cumprimento da ordem dada. Obrigada mil vezes a repetir a
mesma ordem ou a lembrar o cumprimento de uma determinao, faamo-lo sem nos
perturbarmos, como se estivssemos falando pela primeira vez. Sei que isto nos custa,
mas se no sabemos conter-nos, como queremos corrigir os outros?

No desanimemos: cada vez que a criana precisa realmente de correo, corrijamo-la,
ajudemo-la a emendar-se, sem recriminaes (que podem desanim-la), sem alegao
das faltas anteriores.

Dos maiores inimigos da correo,  a falta de continuidade: permite hoje o que proibia
ontem. Guarde fidelidade aos princpios, e coerncia nos atos. Creio no ser preciso
repetir o que disse a 5 norma sobre a necessidade de velar pela execuo das ordens, e
exigir o seu cabal cumprimento, tranqila, mas inflexivelmente.

A perseverana do educador termina conseguindo a do educando: a gota cava a pedra,
no pela fora, mas pela repetio da queda.

Estude cada criana

Cada criana  um mundo diferente.  importantssimo saber por que desobedeceu...
Cada criana  um caso para encaminhamento diferente. A mesma soluo no pode
servir para todos. Infelizmente, na maioria dos colgios, a soluo ser uma s - e no
ser soluo. Todos iro de castigo, agravando as causas da desobedincia, punidos,
mas no corrigidos.

Este no h de ser o caminho do verdadeiro educador, principalmente dos pais. Ele
examinar cada caso e lhe aplicar a conveniente teraputica, levando a criana a mudar
as disposies interiores e dispor-se a agir corretamente na prxima oportunidade. Sem
isto, a correo no tem sentido: a criana ser subjugada, mas a causa da desobedincia
permanece e at se agrava.

No haver castigos?

A idia  to arraigada que me escusaro a insistncia. Se a preocupao  educar, a
correo basta. Ela pode tomar, no entanto, vrias feies, conforme o caso.
- A ordem no foi cumprida; pois o ser agora.
- O trabalho foi mal executado: ser feito de novo, com o cuidado devido. E ser
repetido at que corresponda s possibilidades da criana (que o educador conhece).
- O mesmo acontecer, quando a criana propositadamente modificou a ordem, para
beneficiar-se.
- Houve transtorno em virtude da desobedincia: a criana o reparar, na medida de suas
possibilidades.
- Os casos de obstinao sero rarssimos nas crianas bem educadas. Mas se
aparecerem, os pais os enfrentaro com calma e energia:

a) informando-se primeiramente do obstinado sobre as razes do seu procedimento e
procurando desfaz-las;
b) fazendo-o recolher-se sozinho algum tempo, para pensar melhor;
c) recorrendo ao auxlio de pessoa da confiana da criana;
d) impondo outras sanes educativas que a situao do educando comporte.
Vantagens da desobedincia

Aos que tanto se desgostam e se irritam com as desobedincias do filho dou-lhes uma
palavra de conforto.  bom sinal! Sinal de personalidade forte, que deve ser bem
orientada para dar frutos dos melhores.

- Se no quer obedecer porque no v a razo da ordem, parabns: ele demonstra
conscincia de si, e promete ser um homem digno.
- Se recusa obedecer porque se sente cerceado na sua personalidade, parabns: ele no
ser "o canio agitado pelo vento" que o Evangelho reprova (Mt 11,7).
- Se nega obedincia porque o modo de mandar lhe ofende os brios, parabns: ele sabe
preservar sua dignidade.
- Se ele no aprecia as ordens suprfluas, parabns: ser na certa um homem do dever e
de iniciativa.
- Se repele a ordem porque  contrria  moral, parabns: este menino comea onde
muitos infelizmente no chegaram.

Ele pode ter erros de forma, devidos  idade; mas a substncia  excelente, e s peo a
Deus que no lhe cortem a perspectiva, mas o ajudem a crescer: o futuro dir quanto ele
vale.

Perigos da obedincia (indiscriminada)

Folgam imensamente os pais dos filhos muito obedientes. " to bem mandado! - Basta
dizer uma vez, logo imediatamente obedece! No me d trabalho! Quem dera que todos
fossem                                                                      assim".

Uma obedincia baseada no respeito e no afeto aos pais, no sentimento de inferioridade
que em face deles experimenta o filho, e na confiana inteira que neles deposita,  digna
de louvor. Mas  rara, porque essa piedade filial em to alto grau  muito adulta e
perfeita          para          se            encontrar           em            crianas.

Nem me parece muito normal a obedincia imediata. Em geral se deixa um compasso
de espera, como satisfao ao amor-prprio... Essa obedincia, s a encontramos numa
viso plenamente sobrenatural ou no fanatismo... Costumo dizer aos pais que no
exijam dos filhos a obedincia da lmpada eltrica, que se apaga ao viramos o
interruptor, mas se contentem com a do ventilador, que ainda d umas voltinhas antes
de                                                                           parar...

Exceto em casos privilegiados, tem a demasiada obedincia no pequenos perigos.
Anula-se a vontade da criana, e depois? Essa obedincia excessiva pode ser de m
procedncia                  e                  pssimos                   efeitos.

a) Pode ser preguia mental: para no ter o trabalho de pensar, entrega-se, fazendo o que
lhe mandam, sem repetir, sem medir conseqncias, pronta e automaticamente, como
animal              amestrado                ou             como                mquina.

b) Por sentimento de inferioridade, no em face dos pais, mestres e outros adultos em
que tenha razes de confiar, mas em face de qualquer outro, pode ainda a criana
entregar-se                                    obedincia                   absoluta.

c) H tambm o perigo de aviltamento de carter, se se obedece sem respeito  prpria
personalidade, contra suas convices, contra os ditames da lei e at da moral, e, mais
tarde, com medo ao chefe poderoso,  perda da colocao, do prestgio social e poltico.

Apontados assim, so claros por demais os perigos de uma obedincia indiscriminada,
todos de evidente gravidade... Ela mataria os germes da dignidade, da altanaria e da
honra. No  disciplina, mas servilismo e emasculao moral, que formar no homens,
mas poltres que se deixaro tanger pelos tiranos, subornar pelos corruptos, comprimir
pelos prepotentes, sem nimo para protestos, sem vigor para resistncia, sem coragem
para     a    revolta,    sem       fibra    para     salvar    sequer     a    honra.

 dessa "educao para a morte" que saem as massas das eleies unnimes dos pases
tiranizados, os rebanhos submissos que os totalitrios tangem a vara, os funcionrios
acovardados que cometem as ilegalidades ordenadas pelos chefes, os que cumprem sem
pestanejar as ordens criminosas matando companheiros ou estrangulando jovens
indefesas...

Nem os censurem: aprenderam apenas a obedecer, e obedecem!  o que fazem os que
infamam a servio de terceiros, os que executam os crimes forjados pelos chefes de
"gang", os menores que servem aos interesses de contraventores profissionais, as
mseras mooilas que funcionam como chamarisco para roubos e latrocnios, os
"homens de confiana" que transbordam bens e valores pblicos para as propriedades e
contas de seus prceres, e muitos outros que em semelhantes empresas figuram com
deplorvel      freqncia      nas      sees      policias      das       gazetas.

No          esta,   evidentemente,       a     obedincia     que     preconizamos.
Precisamos de homens - e estes s a obedincia consciente  capaz de formar.
                                 5- O EGOSTA




Esse homem metido em si mesmo, voltado para suas preocupaes e seus interesses,
sem ressonncias para as necessidades ou alegrias do prximo, incapaz de enxugar a
lgrima de quem sofre, insensvel  fome dos miserveis, s angstias do aflito e ao frio
dos esfarrapados, esse homem que s pensa nos outros na medida em que eles lhe
podem ajudar  riqueza ou  fama, e que os larga quando j no tem mais o que lhe dar
(como quem joga fora o bagao da laranja que chupou), esse que s pensa em si, s tem
para si   o egosta.
Tambm ele  infantilizado: no ultrapassou o nvel da criana. No se integrou na
convivncia humana. Seus horizontes fecham-se sobre si mesmo, estreitos e sufocantes.
Seus olhos s vem o cho em que pisa, numa infeliz miopia que no enxerga caminhos
alheios.

Sua capacidade de sentir o que no  seu atinge a selvagens endurecimentos que negam
a prpria natureza  como a jovem que chega da cidade, senta-se, queixa-se do calor e
pede um copo de gua  velha me que labuta na casa e na cozinha desde as 6 da
manh!

Furtado pela natureza e vtima de m educao, ele diminui a prpria capacidade de
viver e extingue uma copiosa fonte de felicidade, desconhecendo a vida de seus irmos
e no os ajudando a ser felizes. Em torno de si espalha o desprezo e a averso.

Criana e jovem

A criancinha precisa de cuidar de si, de apegar-se ao que lhe  necessrio, defender-se
dos elementos estranhos, a fim de poder desenvolver-se. Ela obedece ao instinto que o
Criador lhe deu para orientar-se at que a natureza humana sobrepuje essas
manifestaes inferiores.  nessa idade que ela desconhece quaisquer direitos alheios,
inclusive      o        de       propriedade,       como         depois       veremos.

Na medida em que vai deixando de ser criana, vai tambm perdendo o egotismo. Vai
descobrindo os outros. Estendendo o olhar para fora e ampliando o horizonte.
Interessando-se pelos irmos e colegas. Aos poucos, e se a educao a ajuda.

Na adolescncia, as preocupaes sociais brotam com vigor realmente humano. O
adolescente, se no  mal servido de constituio nem infantilizado pela m educao,
volta-se para os outros. Sai dos limitados crculos da famlia, dos companheiros de
jogos    e    dos colegas       da   escola,    e   abre-se     para   a   sociedade.

Mas no se desliga de um golpe da fase anterior. E apresenta contradies, oscilando
entre rasgos de generosidade e manifestaes de egosmo. Mais se interessa pelos
problemas de fora e de longe mais que pelos da famlia ou da vizinhana. No ser
muito capaz de iniciativas pessoais, mas se integrar com gosto nos grupos de ao.
Nesta idade, mais do que na infncia, reclama compreenso.

Influncia dos pais

Pode, porm, acontecer que no evoluam normalmente, os sentimentos da criana, e ela
passe do egotismo ao egosmo.  uma tendncia m, como qualquer outra, e pode ser
corrigida ou agravada pela educao.

A influncia do lar  de suma importncia, aqui como nos mais setores da formao. Os
filhos imitam insensivelmente os sentimentos dos pais. Aprendem o que se faz e se diz
em casa, ao longo dos dias, despreocupadamente, sem a inteno formal dos conselhos
(contra os quais se pem em guarda).

Se os pais se manifestam egostas na presena das crianas, nas conversas, nos
comentrios aos fatos quotidianos, na maneira de encarar os negcios, no cultivo das
amizades, nas atitudes polticas, no modo de tratar os empregados  os filhos absorvem
suas lies adesivas e marcantes.

Podem at, sem esta inteno, ensinar indiretamente o egosmo, quando satisfazem ao
filho desejos que contrariam ou sobrecarregam a irmos e empregados. Sim, porque
ningum pode satisfazer-se  custa de direitos alheios.

Se, pelo contrrio, so os pais caridosos,  na prpria vida que do s crianas a mais
eficiente educao social, tornando-as, por sua vez, abertas sobre as necessidades do
prximo e generosas em acudi-las. Resistem, ainda assim, certos germes de egosmo.
Mas esta  a melhor maneira de combat-los.

Educao social

Escusemo-nos de justificar a necessidade da educao para o amor e a ajuda do
prximo: a natureza mesma a reclama, as carncias de nossos irmos gritam-nos por ela,
e a tendncia dos tempos lhe d relevo. Graas a Deus! A lio de Cristo clama por
perene cumprimento: "Fazei aos homens o que quereis que eles vos faam" (Mt. 7,12),
o que  maneira de cumprir o "Amars o teu prximo como a ti mesmo" (Mt. 19,19).

Indiquemos o modo de proceder na prtica
Com os pequeninos

- No atender com sofreguido  criancinha;
- Habitu-la a ficar no bero;
- No ceder quando, mais tarde, apareceram sinais de cimes,
- No lhe provocar o egosmo, quando lhe der alguma coisa:
"Isto  para voc"; ou,
para conseguir obedincia: "Coma, seno Fulano vem e come".

Ensinar gentileza

Exercitemos a criana segundo sua capacidade:
- Faz-la distribuir as balas e os doces com os irmos, ficando ela por ltimo;
- Ceder  passagem nas portas, etc.;
- Ajudar os irmos em seus trabalhos;
- Oferecer lugar no nibus s pessoas de idade, doentes, etc.;
- Atender sempre com bons modos e expresses delicadas, seja a quem for;
- Ser delicada e boa com os animais e at com as plantas.

Orientar para o prximo

No se contente em ensinar que no temos o direito de exigir que os outros nos sirvam,
e que devemos interessar-nos pelas necessidades alheias, mas encaminhe a criana para
obras de caridade fraterna. Para isto:
- Mover-lhe a sensibilidade, que  o mais fcil: saber "sentir" a fome, o frio, as
carncias dos pobres, dos doentes, das crianas;
- Habitu-la a dar esmolas do que  seu: balas (guardar umas para a coleguinha mais
pobre, o filho da lavadeira, etc.), brinquedos (no quando j estiverem inutilizados),
roupinhas, sapatos, etc.;
- Guardar revistas, livros de histrias, etc., para levar aos hospitais e educandrios
pobres: isto  mais do que dar presentes,  dar-se ao prximo;
- Dividir a merenda com o colega pobre que no a pode levar  escola;
- Ajudar os que encontre precisados de auxlio a seu alcance: o cego que quer atravessar
a rua, a velhinha que tem dificuldade em subir ao nibus ... a criana que est chorando
na rua, etc.;
- Fazer sentir a felicidade de fazer o bem ao prximo: "a felicidade de afazer os outros
felizes".

Ver a necessidade alheia

No h descrio que valha a verificao pessoal do sofrimento ou das carncias dos
nossos irmos mais pobres.  preciso que as crianas tomem contato direto com o
sofrimento e a misria dos homens, segundo a sua capacidade. Lev-las a:

- Visitar internatos e hospitais infantis, ou mesmo hospitais adultos (selecionando as
enfermarias);
- Ver os bairros pobres, de perto, sentindo-lhes o odor diferente, as dificuldades de toda
ordem, avaliando ao vivo como  possvel sofrer permanentemente aquela misria;
- Levar pessoalmente, algumas vezes, uma palavra de conforto e amizade aos colegas e
amigos enfermos, sejam da mesma condio ou de inferior condio social e
econmica.

Firmar a doutrina

A formao feita assim por obras, firma a doutrinao dada na Catequese e na escola.
Notemos, porm, que, por sua vez, a doutrinao h de ser viva e orientada para o
prximo. No creio em catequese decorada ou meramente terica; por isso mesmo
insisto com os catequistas que dem sentido apostlico  doutrinao, levando o ouvinte
a pensar no prximo e a desejar ajud-lo tanto espiritual como materialmente. Os
homens caram na horrvel situao atual de egosmo por falta de esprito cristo.

H muita necessidade espiritual que deve preocupar o educador cristo:

- Rezar pelos parentes e amigos, os doentes e sofredores, as almas do purgatrio, a
converso dos pecadores, etc.;
- Ajudar as obras religiosas  paroquiais, regionais ou universais, desde as imediatas
para as quais nos conclamam nossos pastores, at as universais, como a converso dos
pagos;
- Sentir as necessidades espirituais do prximo: os que no cumprem os deveres
religiosos, os que no respeitam sequer os preceitos do Declogo, os que no pensam
em preparar-se para a eternidade que se lhes aproxima.

Para ns cristos, toda ajuda fraterna deve ser caridade, isto , amor do prximo por
amor de Deus, feita com vistas sobrenaturais.


                   6- O QUE NO QUER ESTUDAR




Um momento delicado

Aos 7 anos, a criana deixa o crculo limitado e conhecido da famlia, e penetra no
mundo inteiramente novo da escola. No so mais os irmos e os primos: so vrias
crianas, estranhas e heterogneas. No so somente os amiguinhos do edifcio ou do
quarteiro: so desconhecidos agora os seus companheiros: - nunca se viram, no sabe
quem so, nem como se chamam, onde moram, de quem so filhos. Pela primeira vez,
ela  uma desconhecida no meio de desconhecidos. A prpria professora ela no sabe
quem             :           sabe-lhe          apenas            o           nome.

Esse novo mundo em que vai viver  muito diferente da famlia. Em casa eram os outros
que procuravam adaptar-se-lhe: ali  ela que deve adaptar-se a tudo. O seu novo mundo
tem horrios rgidos, marcados pela sirene estridente; tem programas que lhe so
impostos; tem lugares certos que lhe so designados. Grande parte de sua liberdade
acabou-se. Agora ela deve fazer tudo com os outros e como os outros. Um novo regime
de vida. Obrigaes, tarefas, exerccios, com prazo determinado, sem aquela ajuda
pessoal a que est habituada. Poder integrar-se com facilidade no ambiente novo; mas
poder encontrar elementos que lhe rompam o equilbrio emocional.

Dos colegas e da prpria professora receber talvez impresses que a traumatizaro,
criando-lhe dificuldades. Se isto lhe acontecer, e se no encontrar compreenso e
amparo em casa, a vida escolar lhe ser difcil, com perspectivas at de fracasso.

Como ajudar os filhos

Tanto indireta como diretamente podem os pais ajudar os filhos que vo  escola.

I. A ajuda indireta, certamente a mais eficaz, pode ser realizada de vrios modos:

- Boa integrao social
Habituada a conviver bem com os irmos e amiguinhos, a respeitar as pessoas mais
velhas, a obedecer aos pais, a criana encontrar facilmente para o trato com os colegas
e o respeito e obedincia  professora.

- Disciplina
Se em casa contraiu os hbitos sadios de
. pr cada coisa em seu lugar,
. atender com presteza aos horrios,
. saber escutar quando outros falam,
. receber e executar ordens,
. prestar ateno ao que se lhe diz,
- a vida escolar no lhe ser grande novidade, a criana no estorvar as aulas com
conversas, e saber ouvir e aprender o que diz a professora.

- Auto-suficincia
A criana que, desde cedo, aprende a
. usar do banheiro,
. vestir-se sozinha,
. atar o cadaro dos sapatos,
. servi-se  mesa,
. realizar seus trabalhos sem maior dependncia dos adultos,
- sentir-se- bem na escola, e quase no estranhar o seu regime.
- Curiosidade
Sem em casa
. sempre lhe satisfizeram as justas curiosidades,
. se lhe alimentaram o esprito com interessantes e teis conhecimentos,
. se lhe responderam devidamente s naturais perguntas,
. se a familiarizaram com livros ilustrados,
. se a levaram a visitar parques e museus, etc.
- ela experimentar natural desejo de aprender, e provar alegria com os conhecimentos
que a escola lhe for ministrando.

- Expresso
Se, desde o comeo
. ensinam-lhe a falar com correo e propriedade,
. se lhe vo aumentando o vocabulrio conforme as necessidades,
. se lhe deixam participar (educadamente) das conversas da famlia, aprendendo assim
(insensivelmente) a expressar-se com espontaneidade e desembarao.
- grande facilidade encontrar na escola.

- Disposio
. Se lhe falam da escola com simpatia, como de uma atividade agradvel e um lugar
feliz, e da mestra como pessoa encarregada de ajudar a instru-la e prepar-la para a
vida,
. se nunca a ameaaram nem amedrontaram com o estudo e a professora,
- ela ver aproxima-se a vida escolar com alegria ou, pelo menos, com calma e
segurana.

Esta preparao indireta  a mais vantajosa, porque realiza a integrao da criana nas
suas atividades estudantis.

II. H tambm a ajuda direta, dada mais propriamente aos estudos. Entre deixar o filho
entregue a si mesmo e fazer-lhe os exerccios, h o justo proceder dos pais. Quais ser?

- Ajuda nos estudos
Local e horrio para os estudos em casa, a fim de estabelecer disciplina e hbito. O
tempo de estudo no deve ser tanto que gere enfado, nem to pouco que no baste s
lies e exerccios.

- Ambiente de trabalho
Sem excessivos rigores (contraproducentes), o estudo deve ser levado a srio, no
somente para ser eficiente, como tambm pra educar na seriedade do trabalho. No
tempo destinado ao estudo, no se permitam brincadeiras nem conversas, interrupes
indbitas, telefonemas protelveis, etc., a fim de formar nas crianas o senso do dever.

- Verificar os trabalhos
Evitem os pais seguir muito de perto o trabalho da criana, para no torn-la demasiado
dependente. Podem ver se os clculos esto certos, as operaes bem feitas; e, se no,
devem apontar os erros e mandar corrigi-los. Podem tambm explicar as dificuldades
que ela encontrar nos livros ou nas ordens dos professores; mas no discordem do que l
estiver escrito, para no criar-se confuso na mente do aluno. Ao fim do trabalho,
"tomem a lio", para verificar o que ela fez.

Na prtica, esses cuidados cabero antes  me que ao pai. Este, porm, no pode
desinteressar-se dos estudos dos filhos: informe-se freqentemente como vo; veja-lhes
os cadernos, experimente-os, de quando em quando, verifique-lhes a caderneta de notas
ao menos semanalmente, estimule-os com seus conselhos, aplausos e reprimendas.

                      7- O QUE MEXE NO ALHEIO




De todas as faltas infantis  talvez o furto a que mais profunda e desagradvel impresso
produz aos pais.

Atribuindo-lhe uma importncia moral que ela no pode ter, exageram-lhe o aspecto
social, temendo a vergonha que se abater sobre toda a famlia, manchada pela presena
de um "ladro". Descarregam, ento, sobre a pobre criana os mais severos castigos - os
quais, digamo-lo quanto antes, em lugar de remediar, agravam a situao, inclinando
mais fortemente ao furto e complicando-o com mentiras e astcias.

Alguns, ao lado disso, tratam de escond-lo, quando o mal demanda medidas
pedaggicas e mdicas, e no silncio e esconderijo.

A criana que furta merece especiais e imediatos cuidados. No que ela seja um ladro,
que tenha a noo da propriedade alheia e a conscincia moral de que a est violando,
no! Esta  uma atitude adulta, aos poucos adquirida e consolidada. Mas porque o furto
infantil  indcio de insatisfao pessoal, de tendncias irrealizadas, de morbidez, ou de
sugestes consciente ou inconscientemente absorvidas.

Existe nessa pobre criana mveis (s vezes secretos e profundos) que  preciso atingir
para remover - sem o que  impossvel a sua cura. Analis-la , pois, a primeira
necessidade, embora nem sempre seja fcil, mesmo com o concurso imprescindvel
(veja-se bem: imprescindvel) do psiclogo e do pedagogo.
Carncias profundas

A imensa maioria dos pais, despreparados para o ofcio de educadores, adeptos da
"paudagogia", pensando que castigos fsicos so o mais eficiente remdio para esse e
outros males, riro do que vou agora dizer:

Antes de furtar, a criana  furtada.

Sim, est  a verdade. Furtada no afeto a que tem direito, ou a que julga ter. Furtada nos
brinquedos, que todos ganham, menos ela. Furtada nos doces, que no lhe do, ou no
lhe do na medida em que deseja, ou no lhe do aqueles de que mais gosta. Furtada nas
promessas que lhe fizeram e no cumpriram.

Furtada no alimento que os pais no lhe podem dar, porque freqentemente a
organizao social furta tambm aos adultos. Furtada na perfeio de seu corpo ou de
sua inteligncia, como na posio social a que se reputa com direito. E assim por diante.

O furto na criana , na maioria dos casos, mero reflexo da maneira pela qual ela 
tratada. Dele, sem o saberem, sem o quererem, so causadores os pais. Compreendo
porque estejam aborrecidos comigo, ou rindo do que lhes digo. No importa: continuem
a leitura, pois a nossa inteno  a mesma - a correo da criana - embora por meios
diferentes dos usuais.

Furtada seja em que for, a criana, sentindo vaga e profundamente a sua carncia,
procura compensar-se, apropriando-se de alguma coisa que a contente. s vezes,
conforme a idade e a maturidade, sabe que est fazendo uma "coisa errada". Outras,
nem isto. Guarda cuidadosamente o objeto "furtado", pelo que ele representa para ela, e
para que no lho tomem.

Se menorzinha, nem sabe ter reservas: toma a boneca, tanto da irmzinha como da
menina estranha, quer o brinquedo da casa comercial, pede bala ao caixeiro: falta-lhe de
todo a noo de propriedade; subsiste apenas o instinto a satisfazer.

Doces e brinquedos

Certas mes exageram e economia de acar. Ouviram dizer que doces fazem mal aos
dentes (no  o doce,  a falta de cuidados...) Regram demais ...e as crianas ficam
sempre insatisfeitas.

Outras vezes, so elas que tentam os filhos. Os doces ficam  mostra, esperando a festa
do dia seguinte, ou o jantar. E a criana tem pressa... Se um sorvete ou saquinho de
balas nem se fala. Bombons, s nos aniversrios dos amiguinhos, donde as crianas
voltam indigestadas (aproveitaram...), o que refora a doutrina de que no devem com-
los!

No  de admirar que essas vtimas da "lei amarga" cuidem de defender-se como
puderem. Tiram doces ou simples acar, escondidos. Ou dinheiro para as guloseimas
que no lhes do, ou s lhes do em doses homeopticas.
s vezes, a criana  fraudada nas preferncias. Em lugar do doce de goiaba deram-lhe
o de abbora, de que no gosta; e ela furtou, depois, a goiabada.

Promessas descumpridas

Diz o adgio que "a rico no devas, a pobre no prometas". Tambm a criana. E quem
prometer, cumpra.

A) Para contentar a menina visitante o pai disse ao filho que desse a bola colorida que
ele traria outra. E no trouxe. O pequeno apanhou dinheiro da mame (era do papai...)
para comprar outra bola!

B) Em caso idntico, a criana "furtada" comeou a tirar doces, como compensao.
(Erram os que obrigam os pequenos a dar o que lhes pertencem ou o que mais lhe
agrada, a pretexto de form-los na generosidade. Como no esto maduros, no
entendem o que se lhes pede ou manda. Ficam fraudados. E essa frustrao, em lugar de
ser aprendizagem de virtude, abre caminhos ao furto.)

A fome

H muitas maneiras de encarar a fome da criana. Esta, se  filha de pais muito pobres,
vive em regime de fome perene. Fome de verdade: subnutrio. No come o suficiente a
suas necessidades (j no falemos da diferena entre o que come e o que v outras
crianas comerem). No dia em que ela tirar uma fruta na feira, o po da porta do
vizinho, dinheiro para comprar doces e balas,  fcil, muito fcil compreender as suas
razes.

Aquela, de remediada famlia, sente outra espcie de fome: no lhe do aquilo que mais
a regalaria. No seu paladar e na sua escolha,  tambm "faminta" e "furtada".

Descumpam-se os pais, aquele dizendo que no  culpa sua no poder alimentar
fartamente o filho, este que no se h de contentar em tudo a criana. O certo  que a
criana padece um dficit, e procura cobri-lo.

As inferioridades

De suas deficincias orgnicas ou intelectuais, pode tambm a criana procurar
compensaes em furtos.  algo disforme, tem defeito fsico que a inibe, que lhe
dificulta a participao da vida do grupo, ou de que zombam colegas sem caridade;
sente especial dificuldade nos estudos, e no consegue venc-las, apesar dos esforos...
e procura compensar-se no furto.

Outras vezes,  a inferioridade social. Mas vestida, e mal calada, sem merenda para
comer na hora do lanche, procura a criana, com seus furtos, corrigir exterior (e muitas
vezes interiormente) a sua situao.
Desfalques afetivos

A mais freqente causa dos furtos infantis est nos desfalques afetivos. Vtima da falta
de afeto - real ou imaginria, pouco importa! - ela corre a buscar uma compensao.
Pensa resolver assim o conflito interior.

As causas dos conflitos nem sempre so claras, e freqentemente as prprias crianas
no as ligam a seus pequenos furtos. Alguns leigos em psicologia se negaro a aceit-
las, e continuaro em seus erros. Tanto pior para eles e principalmente para suas
prprias vtimas.

Reconhecemos que muitas dessas falhas so cometidas inconscientemente - o que no
lhes diminui a eficincia, nem a razo para as desprezarmos. Narrarei alguns casos,
absolutamente verdicos, que ilustraro o assunto.

- Percebendo que a me dispensa maiores carinhos ao pai do que a ele, o filho de 8 anos
comea a praticar pequenos furtos.

- Filha nica durante 7 anos, a menina, enciumada com a chegada do irmozinho para
quem se canalizam cuidados com atenes que antes lhe pertenciam, deu para furtar
objetos da mame.

- Habituado a dormir com a mame (pssimo hbito por vrios motivos), passando a
dormir sozinho, o menino de 8 anos, alm de outras desagradveis atitudes, deu tambm
para furtar.

- Viajando os pais para a Europa, a filha de 6 anos, que ficou com parentes, praticou
uma srie de furtos, que cessaram com a volta dos pais e a sua integrao no lar. Mas
tornou aos furtos, quando a situao anterior se repetiu... Caso tpico, pois o furto
aparece com a frustrao afetiva, desaparece quando ela cessa, e se repete quando ela
novamente surge. Assim explicamos vrios casos de furto peridicos que surgem e
desaparecem "ningum sabe por qu!"

Furtos inteis

Muitos outros poderia referir, por fracasso na vida escolar, pela separao dos pais, aps
um castigo mais severo, por uma medida humilhante para ela - por uma frustrao
afetiva qualquer, uma situao de desajustamento, uma perda ou diminuio de amor,
um conflito interior, uma angstia ou um problema espiritual.

Robin, em "L'enfant sans dfauts", conta do pequenino de 6 anos que, por no mais lhe
ser permitido dormir com a mame, furtava as suas meias, e nelas se enrolava,
explicando que sem a mame no conseguia dormir.  que as meias a simbolizavam.

A ligao entre o furto e a causa  to evidente que todos a percebero com clareza, ao
menos depois de explicada... Espantam-se, s vezes, os leigos ao verem que as crianas
furtam objetos inteis para elas. Este caso mostra que o objeto furtado (meias) eram
muito teis, pelo que significavam.
                                   Outras causas
A esses conflitos afetivos prendem-se os furtos por inveja e cime, e principalmente por
vingana: crianas que querem privar os pais de objetos que lhe so teis ou queridos,
ou querem desgost-los, sabendo o desagrado que lhes causam seus furtos. Ento,
procuram, s vezes, inutilizar os objetos furtados, com evidente desejo de vingar-se.

Relacionemos igualmente aqui o chamado furto generoso ou altrustico, que se encontra
tambm nos adultos, mas que na criana representa mais freqentemente a compensao
pela falta de afeto: ela, com presentes, procura entre colegas, a estima que julga lhe
negarem seus pais e mestres. Alguns o praticam por vaidade, ou tambm compensando-
se de uma situao de inferioridade.

Por sugesto

Depois dos conflitos ntimos, creio que a causa mais constante dos furtos infantis  a
sugesto. O ambiente  contagioso. Rarssimos, em toda a humanidade, lhe escapam ao
influxo. Mais que os adultos, cedem facilmente s crianas  fora do exemplo, das
palavras, da vida domstica. Desgraadas daquelas que no tm no lar sadia atmosfera
moral.

Se no  muito alto o padro de honestidade dos pais, instala-se nos filhos uma
deformao que s a muito custo se corrigir. Raros mandaro, expressamente, os filhos
roubarem; muitos, porm, o faro de outras maneiras:

- quando a me conta que recebeu o troco a mais, ou que o caixeiro no incluiu na conta
tal mercadoria, e ela deixou-se estar;
- quando o pai se gaba do "alto negcio" em que conseguiu enganar a vtima;
- quando o titio fanfarrona suas negociatas; esto ensinando as crianas a serem
desonestas.

Quando,  vista dos menores, diz-se que Fulano seria um tolo se no tivesse enriquecido
no cargo pblico que exerceu;
- quando se repete que hoje basta furtar para enriquecer;
- quando se louva o governante que entrou para o governo pobreto e saiu nababo; 
lio de desonestidade que se est dando.

J  demais o ambiente de desonestidade triunfante da sociedade, e o educador deve
esforar-se por desfaz-lo e no refor-lo. Cedem tambm facilmente  sugesto do
grupo. Se o grupo a que se filia o menor  dado a essas prticas  quase certo que ele se
perverter.

Como alhures, tambm aqui so lamentveis conseqncias os filmes e as histrias de
quadrinhos em que se glorifica o roubo sob suas vrias modalidades.

Aventuras

Meninos, pr-adolescentes, furtam por esprito de aventura. Divertem-se com aquilo.
Contam suas peripcias com gosto, vivendo-as, transbordantes. Como os caadores. Um
esporte apenas.

Doena

Os que furtam por doenas so muito raros. Outros talvez conheam casos de
cleptomania em crianas; no os conheo. Em adultos, sim, embora poucos. A pessoa se
sente impelida por fora a que no pode resistir. O ato se impe, consciente. A pobre
criatura, s vezes, luta, mas sucumbe.

Alguns epilpticos e epileptides sentem pronunciadas tendncias ao furto. Crianas
vtimas de sfilis, ou molstias infecciosas que lhes atingiram o sistema nervoso central,
ou portadoras de perverses instintivas e atrasos mentais, de instabilidade, apresentam,
s vezes, essas tendncias.

Providenciem imediatamente seus responsveis os cuidados mdicos e psico-
pedaggicos indispensveis, pois no so casos para a simples educao domstica. O
mesmo lhes aconselho, quando se trata de pervertido.  tambm doente: contraiu o mal.


O primeiro cuidado

Apanhada a criana em furto, devemos guardar a maior calma, reprovar-lhe o ato, e
fazer um exame da situao.

Pesemos as circunstncias:

- Que idade tem?
- Sabe que estava "furtando", ou apenas "tirou escondido", mais por traquinada, por
desobedincia, do que por furto?
- Que furtou? (Isto  muito importante).
- Foi  primeira vez?
- O furto foi preparado, ou de improviso?
- Furtou sozinha ou acompanhada?
- Algum sabia deste ou de outros furtos? Quem era? Por que furtou: para comer, para
comprar comida, para guardar, para usar, para dar?
- Houve algum desentendimento mais ou menos recente com o dono da coisa furtada?
- Se  reincidente, que tem furtado? A quem? Para que?
- Vem  criana apresentando dificuldades noutros terrenos?
- Que explicao deu?
- De que modo foi interrogado: com calma (verdadeira, no fingida)? Ou com raiva?
- Mostra-se arrependida?

No esqueamos uma pergunta valiosssima: Que aconteceu de importante em casa, que
possa ter determinado essa atitude da criana? (Sim: no esquecer que a criana que
furta, antes foi "furtada"). Coloquemo-nos mais do ponto de vista da criana que do
nosso...

Que castigo dar?

No, no  de castigo que a criana precisa;  de correo. Castigo j recebeu, e no
pequeno, na vergonha de ser apanhada em furto. Os que pensam em castig-la, e o mais
severamente possvel, em surr-la de modo "exemplar", esquecem (ou ignoram) que isto
lhe vai apenas agravar o problema.

- Se a criana furtou por sentir-se em conflito interior, o castigo lhe aumentar o
conflito.
- Julgava-se infeliz por no ser amada, e a surramos para mostrar-lhe--- que a amamos?
- Mentimo-lhe quando no cumprimos nossas promessas, e queremos cumpri-las... com
pancadas?
- O furto revela a insatisfao da criana, e para content-la... aumentamos-lhe as
privaes?
- Procurou a criana remdio a seus sofrimentos, e ns corremos a... aument-los no
corpo e na alma?

Em nada disto pensam os pais. Preocupados com o bom nome da famlia, atiram-se
contra a pobre criana, a bat-la e a maltrat-la com mil punies. E pasmam de ver que
no veio a desejada correo. Nem podia vir. Pelo contrrio, tanto mais infeliz se sente,
mais procura compensar-se em novos furtos.

O furto j por si leva  reincidncia: como a coisa furtada perece (o doce  comido; o
dinheiro, gasto) ou no representa plenamente o que falta, a criana passa a procurar
outra compensao. E como, s vezes, lhe vem o remorso e a angstia do mal que fez, a
insatisfao se agrava, e ela sente necessidade de furtar mais. Se a isto acrescentarem
mais castigos, negando-lhe ainda o afeto que procura, afligindo-a com recriminaes, 
claro que estimulam a reincidncia, embora procurem precisamente o contrrio.

Que fazer ento?

Diga-se-lhe (com a maior calma e carinho) que fez mal, que o objeto vai ser entregue ao
dono (sem outra atitude que possa humilhar mais a criana). E, em seguida, aquelas
conversas, acima descritas como o primeiro cuidado.

Descoberta a causa do conflito, procure-se satisfazer a tendncia fraudada - o que
tambm h de ser feito com tato e prudncia, para no se abrir a porta a outros abusos. E
quando essa satisfao no for possvel, fazer que a criana compreenda a sua situao,
a fim de evitar-se a frustrao e suas lamentveis conseqncias...
Senso de justia

Os meios para a formao do senso de justia e honestidade so conhecidos. Dar
exemplo de respeito aos bens alheios, nas grandes e pequenas coisas, e tanto com
estranhos como com os da famlia, notadamente as crianas;

- falar sempre da honestidade como de excelente virtude, necessria  segurana e
tranqilidade dos homens;
- inculcar o direito de propriedade como vantajoso e amvel;
- infundir amor aos sentimentos nobres e  coragem moral;
- reprovar tudo o que fere a moral no que toca  propriedade, na esfera particular ou
pblica, em grandes ou diminutas propores;
- desenvolver nos filhos o senso social, salientando quanto importam aos homens o
conceito da dignidade pessoal e a confiana recproca.

Nas famlias crists... salientar o Mandamento divino que manda no furtar (Ex 20,15);
- mostrar como o Senhor ordenou a punio do furto (Ex 21,16) e a restituio dos
objetos furtados (Ex 22,1);
- contar o cuidado de Tobias, ao ouvir em casa o balido da ovelhinha, temendo fosse
furtada (Tob. 2,21). E nos exames de conscincia com as crianas fazer a respeito uma
pergunta, a fim de manter vivo e delicado o sentimento de honestidade.

A criana e o dinheiro

Deve-se, ou no, dar dinheiro s crianas? Sou dos que afirmam que sim, desde que elas
sejam para isto preparadas. Antes do dinheiro, apresentemo-lhes o seu justo valor.  um
meio universal de aquisio. No ser nunca o principal bem da vida: "Vale quem tem";
"Vale quanto tem"; " gente de bem porque  rica". Nunca! Mas  necessrio, til,
agradvel, e custa ganh-lo. No acrescento: "honradamente", porque, em hiptese
alguma admitiremos o contrrio.

Em segundo lugar, sejamos prudentes e metdicos ao dar-lhes dinheiro. Se lhes dermos
ora muito, ora pouco demais, segundo os caprichos nossos ou delas, desorientamo-las, e
elas no acertaro o critrio de bem avaliar o dinheiro.

Se dermos com leviandade, mandando que vo apanh-lo na gaveta ou em nossa
carteira, dar-lhe-emos a falsa impresso de que dinheiro  fcil, e  s meter a mo e
tirar. Se o dermos somente para seus surpfluos (... passeios, balas, sorvetes),
acreditaro que quanto lhes dermos  para isso, e gastaro com surprfluos tudo que
receberem.

Sou partidrio da mesadinha, em quotas semanais para os menores, quinzenais para os
maiores que j tiverem melhor capacidade de controle. Feita a preparao da criana,
d-se-lhe certa quantia, explica-se-lhe em que h de ser gasta.

Primeiro, o necessrio: lpis, caderno, cordo do sapato, donativo do culto, conduo
para a escola e a igreja, etc. (Se a criana  muito pequena, ainda no permitir tantos
necessrios: d-se menos).

No comeo, controla-se mais de perto o gasto. Se a criana corresponde  confiana,
alarga-se o controle. Se ela desperdiou o dinheiro, e no o tem para o necessrio, 
preciso deix-la sofrer a necessidade: ir a p para a escola, ficar sem cordo no sapato
at a prxima semana, etc. E na prxima semana tirar do seu surpfluo para o
necessrio que no comprou na anterior.
Parece rigoroso, mas  educativo, e sem isto viro as facilidades perigosas. Em dias
festivos, ou quando o pai tiver um lucro fora do ordinrio (os filhos devem saber que
recebeu segundo as possibilidades do pai), pode haver uma distribuio mais farta.

E o pecado?

H o pecado material, isto : o ato em si  matria para pecado; mas haver pecado
formal? isto : ter havido malcia de pecado - advertncia e desejo de violar a Lei de
Deus?

Para isto deve a criana ter um senso de propriedade, que nem sempre nela encontramos
- mesmo porque no lho deram. As crianas tiram o que no lhes pertence, mais como
desobedincia aos pais do que como furto. Isto se observa no prprio modo de se
acusarem: "tirar coisas escondido".

Mesmo que se trate de quantias elevadas, ou objetos valiosos (que tanto impressionam
os adultos), s lhes distinguem o valor na adolescncia. Tiram o brinquedo de matria
plstica ou o anel de brilhantes, pois geralmente no medem os valores.

Quando a criana for  Confisso,  bom lembrar-lhe que confesse seu pecado, sem
insistir nisto, para no lhe agravar a culpa, que se existir, Deus sabe que no  to
grave... Nas oraes faam-na pedir a Deus a graa de no cometer qualquer pecado,
mas no frisem o furto. Ensinem-lhe a resistir s tentaes, no especificando tambm a
sua especial fraqueza. Evite-se tudo o que pode fixar a mente infantil na falta que se
quer corrigir.


                                  8- O GULOSO
Em face de crescimento, exigem as crianas maior quantidade de alimentos do que os
adultos.
Na infncia, ficar sempre um gosto de comer, um apetite, uma capacidade, que talvez
nos paream excessivos, mas sero prprios da idade. Raras so as crianas de apetite
discreto.
Compreende-se que no saibam regular ainda os apetites, como no sabem conter-se
nem avaliar as conseqncias de seus excessos. Os pais  que lhes devem ditar as
regras, servir o necessrio, impor-lhes os limites do razovel, poupar-lhes os riscos das
demasias.

Tipos de gulosos

H crianas mais desmarcadas. Esto sempre dispostas a comer, e a comer muito, se as
deixarem. So vorazes, comem muito e de tudo.
Refinados: gostam de pratos finos e bem apresentados. So mais raros.
Aucarados: loucos por doces e sobremesas, mais do que em geral todas as crianas.
Afetivos: tendem para determinados alimentos e para quem lhos oferece: os pais,
padrinhos, avs e tios facilmente o percebem, e "subornam" a criana, "comprando-lhe"
a amizade por bombons e carinhos...

Causas

No h explicao cabal para o procedimento dessas crianas que assim o so por
natureza. So simplesmente "gulosas", como seriam surdas ou cegas, se tais tivesses
nascido.
- H fatores orgnicos na raiz dessa tendncia. Mas, em numerosos casos, h tambm
causas psquicas e pedaggicas, artificialmente instaladas por erros de educao ...
- Errado, o proceder de muitos pais que "pagam" aos filhos com guloseimas o
cumprimento do dever: "Faa, que eu lhe dou uns bombons".
- Errado, tambm, habituarem os pequeninos aos saquinhos de balas, cada vez que
voltam para casa. Terminam os coitadinhos insensivelmente deixando em segundo
plano  figura do pai, e at se aborrecendo com ele, quando, alguma vez, as balinhas no
vierem. O castigo  merecido, mas a situao em si  bem triste.
- Os que julgam cortar o mal pela raiz proibindo doces e chocolates aos filhos (que os
amam generosamente) caem num engano, pois a proibio excita ainda os "gulosos".
- Quando os adultos so os primeiros a exceder-se  mesa e a falar com regalo de seus
rega-bofes, no admira que as crianas lhes sigam os desatinados passos.
- H casos de jovenzinhas que se do com excesso  comida para desfazer a silhueta
extremamente delgada, como outras fazem insensatos regimes para no engordar.
- Certos psiclogos ligam a gula o desejo de domnio; a criana come mais que as outras
para mostrar-se superior. Pode ser que isto acontea. Os lares em que no h equilbrio
afetivo, e no proporcionam aos filhos a alegria de viver, produzem os mais inesperados
efeitos.

Os males da gula

So muitas as devastaes da gula, assim na sade do corpo como na da alma...
-  sabido quanto o guloso tira da inteligncia o que concede ao estmago.
Superalimentado, o homem  antes arrastado para baixo do que impulsionado para o
alto... Empanturrado, o escolar sente-se pouco disposto a exerccios intelectuais, e o
adulto a pensamentos filosficos e pesquisas cientficas. A prpria sensibilidade - fsica,
artista, moral - se embota nos glutes.
- A cuidados morais e religiosos pouco ou nada se dar quem ceva assim o animal que
est em todos ns. As relaes entre a temperana e a castidade, por exemplo, so
notrias. S. Agostinho lembra que se torna indominvel o cavalo bem tratado. A gula
abre caminho a toda espcie de incontinncia. No esquecer que  a gula um dos
pecados (ou vcios) capitais, isto , fonte de outros pecados e vcios, que a ela se
prendem como efeitos  causa. Ao revs, sabe-se como eram sbrios os santos, sem
exceo. A liturgia, no prefcio do tempo quaresmal, faz o elogio do jejum:: "reprime os
vcios, eleva a inteligncia e facilita a virtude".
Tantos males j nos do sobejas razes para corrigirmos a tempo e com mdios idneos
as crianas que se revelam gulosas.

Tratamento

Desde o princpio, a me deve regular a alimentao do filho, dando o necessrio (nem
mais, nem menos) e a horas certas - hbitos que importa criar e solidificar, para que se
mantenham toda a vida. Mas tarde, cada criana se diversificar comendo mais ou
menos, de acordo com suas tendncias e capacidades (que no so idnticas em todas).
Ento, vigiaro os pais para que as mais bem dotadas de apetite se conservem nos
limites do razovel... Aos pais e mais especialmente  me, cabe no lhes dar quanto
querem ou pedem.

Bons hbitos alimentares

Nunca  cedo demais para ensinar as boas maneiras no alimentar-se:
- comer devagar, sossegadamente, sem medo que o alimento lhe fuja do prato,
- mastigar bem, para no sobrecarregar o estmago com o trabalho que compete  boca.
- quanto possvel, aceitar o que se pe  mesa (como mandou Cristo a seus discpulos:
cf. S. Lucas 10,8). Quanto a este ponto, no convm forar as crianas: h preferncias e
repugnncias naturais, estas sobremaneira resistentes aos esforos mesmo dos adultos,
enquanto outras cedem com relativa facilidade, desde que os educadores saibam
conduzir-se.

Fazer compreenderem

Com os pequeninos ficaremos apenas nas necessrias medidas, sem explicaes que
eles no compreendero ainda. Mas,  medida em que as forem compreendendo, ns as
iremos dando. So muitas e boas as razes de temperana, e o educador as dosar desde
a simples afirmao de que "faz mal" ou " feio" at o sentido do domnio de si e do
respeito ao templo de Deus, que  nosso corpo de cristos.
... No convm, que os pais estejam a pregar "sermes" sobre a temperana, porque as
crianas deles se cansam com facilidade e perdero a eficcia as razes que, se ditas
com oportunidade, facilitam e consolidam os bons hbitos, neste como noutros terrenos.

No lar cristo

Havendo atmosfera crist na famlia,  fcil orientar as crianas para pequenos
sacrifcios, em que se privaro de um doce, uma sobremesa, etc., por amor a Jesus. Ou
guardaro uma fruta ou um bombom, para do-lo ao amiguinho mais pobre.
 mesa, sero servidas a seus tempo, aprendendo a aguardar pacientemente sua
oportunidade ... Convictos das vantagens da temperana e dos males da glutoneria, os
pais falaro naturalmente uma linguagem justa a esse respeito. Em face de algum mau
exemplo que derem pessoas estranhas, censuraro seus erros e falaro com desprezo dos
que fazem do ventre o seu deus (cf. Filip. 3,19)

Exemplo dos pais

Embora parea escusado, digamos expressamente aqui, como sempre, em educao vale
o exemplo dos pais:
- discretos e elegantes, no que tange  alimentao,
- servindo-se com moderao, comendo para viver (ao invs dos que vivem para
comer),
- fiis aos horrios, de que s raro se apartaro,
- sbrios e mortificados,

Do com os prprios atos a mais eficiente lio, porque constante, vivida e muda. Os
que de outra maneira procedem, nem presumam corrigir os filhos, para no agravarem
com o ridculo a pssima lio que lhes ministram...

                              9- O MEDROSO




H medos instintivos: como a galinha foge ao ver pela primeira vez a raposa, o homem
recua diante do que lhe representa perigo. Quando o perigo  determinado e conhecido,
o medo revigora o homem para a luta ou para a fuga. Quando, porm, a pessoa teme
sem saber ao certo o que nem porque, no tendo para onde fugir, toma o tormentoso
caminho da angstia.

 instintivamente que as crianas de dois meses estremecem com rudos sbitos ou com
uma luz mais viva que de repente se acende. E mais tarde choram em face de um
desconhecido, correm de animais, recuam ante o fogo, gritam quando as suspendem
bruscamente ou as giram, etc.
Medo ao desconhecido

Tudo o que  sbito, intenso ou desconhecido produz medo  criana.  por isso que
seus terrores so tanto mais numerosos quanto maior  sua ignorncia das coisas. Vejam
como se apavora facilmente um pequenino de dois a quatro anos.  medida que ele for
tomando conhecimento da vida, vai perdendo muitos medos, a menos que uma errada
educao os agrave e multiplique.

Ensina-se o medo

A criana  extremamente sugestionvel: aprende com facilidade o que v e escuta.
V-se a me subir  cadeira por causa de uma barata, o pai espavorido com o nmero
13, as irms apavoradas com o trovo, etc.,  natural que tome as mesmas ridculas
atitudes. Assim se explicam os idiotas pavores de escuro, mscaras, cor preta, soldado,
velho mendigo, sangue, etc.
Do ambiente domstico lhe vm outros medos: lobisomem, fantasmas, almas de outro
mundo, cadveres, doenas, micrbios, tabus alimentares, supersties mil, personagens
imaginrios e at reais, mas que antes devem infundir simpatia  soldado, padre,
mdico, dentista, mendigo...

H medos cultivados pelos adultos. Pais, incapazes de se fazerem obedecer, apelam para
intimidaes; empregadas, para acalmarem as crianas, ou as fazerem comer, dormir,
etc., ameaam-nas com a guarda ou bicho-papo! Mes os sugerem a ponto de deformar
a criana.

As sugestes provm tambm de histrias macabras, filmes impressionantes (entre estes
citamos os "infantis" "Branca de Neve" e "Chapeuzinho Vermelho"), certas revistas de
quadrinhos, que vo povoando a imaginao das crianas de cenas de violncias e
sangue, de personagens agressivos e medonhos, e de perigos que ameaaram outras
crianas.

Recomendaes excessivas

- "No subam nas rvores, para no carem"
- "No joguem bola, para no se feriem"
- "No corram na bicicleta, para no quebrarem a espinha"
- "No se debrucem na janela, que  muito perigoso"
- "No tomem chuviscos, para no ficarem tuberculosos"

So lies de poltronearia, de falta de iniciativa, de carter varonil! O que vale  que,
em sua maioria, as crianas as desprezam... E se as no desprezam prejudicam-se!

Vida domstica

Calma e tranqila, a vida da famlia espalha nas crianas confiana e bem-estar. Agitada
e procelosa, infunde-lhes desassossego e insegurana, levando-as ao medo difuso,
gerador de angstias. Se a famlia  agitada por brigas do casal, por cenas de alcoolismo
ou perturbao mental, no admira sejam os filhos agitados por sobressaltos ao menor
rudo ou alterao de vozes...
Evitemos o medo

No pretendemos extirpar da criana todos os medos. No creio que seja isto possvel
aos adultos normais. Por mais fortes que sejamos, temos sempre algum medo, embora
no o confessemos com facilidade, pois no  l muito honroso... Procuremos, contudo,
evit-lo nas crianas.

Dar segurana

Um ambiente de segurana, em que os adultos no falem de medos e no os tenham
desnecessariamente,  condio essencial. Medo gera medo; segurana estabelece
segurana. Amadas, felizes, sentir-se-o em garantia as crianas. Mesmo em face de
perigos, portem-se os pais com moderao e tranqilidade, sem espantos, porque
espanto produz medo.

Ambiente normal

D-se aos pequeninos um ambiente normal, habituando-os aos rumores comuns da casa
(sem exagerados silncios para dormirem),  meia luz do quarto para repouso diurno, 
escurido para a noite (e assim se elimina o medo  escurido).
A criana forte

 necessrio dar  criana confiana em si : sono suficiente, alimento, exerccio fsico,
jogos de bola, corrida, exerccios de bicicleta... Isso lhe d segurana. Arranhou?
Mercrio-cromo... Quebrou? Engessa... Se os companheiros fazem isto tudo, e ela no o
faz, por medo, sentir-se- inferiorizada. O essencial  educar uma criana sadia de corpo
e esprito.

No meter medo

Vigiar para no se falar do que mete medo s crianas; nem a famlia, nem as
empregadas. E quando elas o ouvirem de estranhos, reduzir as coisas a suas verdadeiras
dimenses, apontando o ridculo dos que temem o inofensivo.

No ridicularizar

Quando a criana tem medo ( impossvel no o ter), evite-se ridiculariz-la. Mesmo
que no haja motivo real, h o subjetivo: ela v o perigo, porque cr nele! Ridicularizar
outros medrosos est certo; a prpria criana no, porque isso a inibe e a inferioriza.

Confiana em Deus

Ns, que no compreendemos a educao sem o fator religioso, devemos valorizar, com
a criana, a confiana em Deus: Ele nos protege. Pense a criana em Deus, invoque-O, e
fique tranqila.
Temores benficos

Sempre que haja um perigo real, a criana deve saber tem-lo, a fim de evit-lo. O
melhor ser saber com evit-lo... A boa educao requer que no apenas se conheam os
perigos, mas se saiba evit-los  preparando a criana para isto.

O temor de Deus

O grande temor de que o educador deve impregnar seus pupilos  aquele a que o
Esprito Santo chama "o princpio da sabedoria" (Prov. 1,7). Quem tem na alma, firme e
profundo, o temor de Deus, est em condies de resistir a todos os perigos e vencer
todos os temores. Teme-se o pecado, porque  ofensa ao Pai, muito mais do que pela
conseqncia de levar ao inferno. Teme-se o perigo de pecar, porque as fragilidades da
natureza no precisam mais de experincias para prov-las. Teme-se as ms
companhias, porque so elementos de perdio mais perniciosos que o prprio demnio.

Educar para o temor de Deus  educar para a sabedoria, porque o "temor do Senhor  a
prpria sabedoria" (Jo 28,28).  educar para o horror ao mal e o amor ao bem.  educar
para a coragem, a fortaleza, a energia, a coerncia  virtudes que esto faltando
assustadoramente a nossos contemporneos.  preparar homens que, em face do dever,
sabero cumpri-lo sem olhar convenincias subalternas, porque desconhecem o medo da
opinio alheia e no se apavoram dos instveis julgamentos humanos.

 para esta educao que nos devemos orientar.


                    10- O QUE FALTA A VERDADE




Mentir  falar contra o que se pensa, com inteno de enganar. Quem falta  verdade por
no conhec-la, erra; mas no mente. Quem mistura os fatos com cenas da imaginao,
por falta de idade (ou por excesso...), no mente: altera a verdade.
O teor prtico do nosso estudo no discutir se as crianas so naturalmente verdadeiras
ou mentirosas. Se umas vezes elas nos vexam com suas fraquezas, outras so incapazes
de repetir o que vem e ouvem sem mistur-lo a seus devaneios.

Ao educador o que mais importa  distinguir dos naturais enganos infantis as
verdadeiras mentiras, conhecer-lhes as causas, saber como haver-se em face de uns e
das outras.

Mentiras infantis

Ante a inverdade duma criana, nosso primeiro cuidado  indagar-lhe a causa, para nos
inteirarmos da verdadeira situao da criana, avaliar a sua condio psquica ou moral,
e proporcionar-lhe os meios de cura.... Vejamos por que mentem as crianas e como
acudi-las.

Medo

A) Eis a mais abundante fonte da mentira infantil. O Dr. Gilbert Robin ("L'enfant sans
dfauts") cita o resultado de um inqurito entre escolares na Frana: o medo figura com
72,9%, enquanto o interesse apenas com 7,6%, a fico com 3,5%, e a maldade (como o
altrusmo) com 2,6%. Afora outras causas.

J de si  a criana insegura; muitas vezes, tmida o intimidvel. Quando os pais so
inclinados a castigar com freqncia e severidade ela, numa justificada atitude de
defesa, nega as faltas cometidas. Desenganem-se os que apelam para a dureza, na iluso
de corrigir os filhos: conseguem apenas multiplicar os males. Da criana que
desobedeceu, bateu num colega, quebrou um vaso, enguiou a radiola, etc., faro
tambm  mentirosa.

B) Procurem corrigir por meios suaves. Mostrem calma e compreenso. Convivam com
os filhos, em relaes de respeitoso e terno amor. Isto no significa fraqueza: a criana o
compreender, se os pais souberem manter-se. Saibam ouvir, ponderar, discernir.
Perdoem muita coisa, em vista da fraqueza da criana, para que ela veja que vale a pena
ser leal.

Suprime-se, assim, a mais freqente causa da mentira.

Interesse

A) Mesmo tratadas com brandura e compreenso, h crianas que mentem por interesse.
Para alcanar dos pais o que de outro modo no alcanariam. Para sair da escola mais
cedo. Para manter um bom nome: negam faltas cometidas, mesmo que sejam usuais
castigos fortes. Etc.

Tornam-se, s vezes, irritantes: apanhadas em flagrante, negam o que as vimos fazendo.
Do explicaes esfarrapadas, contraditrias.

B)  preciso revestirmo-nos de imensa calma ante casos assim. No podemos deixar
que elas nos julguem cmplices de suas atitudes; mas no podemos ceder  irritao. A
correo acertada exige calma e autodomnio.
- Alarmam-se os pais, pensando em falta de senso moral, irresponsabilidade, cinismo.
No; a criana revela antes, como diz Ren Allendy, no seu excelente "L'enfance
mconnue", "a falta de lgica do ato, e, portanto, seu carter reflexo ou instintivo".

Compensao

A) Inventam as histrias mais inesperadas. Muitos pais no acreditam que aquilo lhes
seja convico.  outro mundo no qual se refugiam, batidas da realidade em que vivem.

- Maus alunos, alardeiam-se os primeiros da classe.
- Gabam-se - pobrezinhos! - de passar a queijo, doces e frutas caras.
- Dizem-se rfos, sem o serem.
- Sendo j crescidos, "promovem-se" a sries adiantadas, quando esto ainda nas
primeiras. E assim por diante.

Sentem-se insatisfeitos com sua realidade exterior ou ntima. Buscam no irreal o apoio
que lhes falta. Suas inverdicas histrias de grandeza, riqueza, xito ou liberdade
resolvem-lhes as tenses ou carncias psquicas ou materiais.

B) Um educador avisado, em lugar de dizer: "Um menino deste tamanho no tem
vergonha de mentir assim", deve perceber que a criana est procurando (o mais das
vezes, inconscientemente) uma compensao pela "vida infeliz" que leva... Vive de "faz
de conta"; faz-de-conta que  a primeira da aula, que se alimenta bem, etc. Ento, vejam
os pais como isto  grave: h filhos que desejam ser rfos...

- Que haver na base dessas mentiras? So compensaes de que? Em face de embustes
assim, importa distinguir a causa (que  legtima) do meio (ilegtimo) a que a criana
recorre. E encaminhar o problema por outros rumos, de modo prtico e cordial.

Sugesto

A) Desgostam profundamente aos pais as mentiras dos filhos... Dir-se-ia que a mentira
... privilgio de adultos. Sim, porque, censurando tanto as mentirinhas infantis, do os
mais eficazes exemplos de enganos, simulaes e descabidas "restries mentais".

- Mentem os pais por comodismo, interesse e esperteza comercial. Mentem as mes
diminuindo a idade, exagerando o custo das jias, encobrindo os malfeitos da famlia.
Impregnam          de         mentira         o         ambiente          domstico.

- Ensinam aos filhos como devem mentir: "Como  que vai dizer?" Obrigam-nos a
mentir: "Diga que eu no estou em casa." Freqentemente os enganam. "D a boneca a
ela que eu lhe dou outra"; e nunca deu. "Vamos passear": e leva a criana ao dentista.

- Censuram-nos, quando falam a verdade. "Para que disse que eu estava? Idiota!"...

Depois, fingem de indignados, quando os filhos mentem. Ou se desagradam mesmo,
esquecidos             de             que              so             culpados.

B) Importa dar sempre e em tudo o exemplo da verdade. Ser neste ponto mais que
cuidadoso:                                                                  escrupuloso.

- Eliminar a prpria restrio mental, quando as crianas no so capazes de
compreend-la, para que no queiram usar dela tambm e indiscriminadamente...

Fantasia

A) O mundo da criana no  o nosso. Ela tem o seu mundo, no qual as nossas
realidades figuram deformadas, acrescidas, enfeitadas pela sua imaginao. Esse seu
mundo gira em torno dela (egocentrismo), mesmo porque foi criado por ela...

Falta-lhe objetividade - que falta tantas vezes aos prprios adultos. Contando o que viu
ou ouviu (sobretudo quando isso a emociona), mistura o real e o imaginrio, sem saber
discerni-los. E modifica a narrativa, cada vez que a repete, segundo os caprichos da
fantasia, com a maior sem-cerimnia, cedendo s impresses subjetivas com inteira
liberdade. As mincias ou lhe escapam de todo ou tomam mais propores que superam
o                                                                              principal.

Chamar por isso s crianas de mentirosas  xingar, de uma s vez, todos os
romancistas e teatrlogos do mundo. Acus-las de estarem convencidas, enquanto os
outros sabem que inventam, -lhes mais defesa que acusao. E, s vezes, os adultos,
que estragam ou censuram as crianas que tomam o imaginrio como real, so os
mesmos       que      choram     lendo      romances     e      vendo       filmes...

B) Dizem que a diferena entre um louco e uma criana  que o tempo cura  criana e
nem sempre ao louco. Aqui o tempo a melhor teraputica. Com a idade vai passando a
fase fantasiosa, chega aos poucos a objetividade, aumenta paulatinamente a capacidade
de perceber e comparar, amplia-se o campo da objetividade, enquanto diminui a
defeituosa         apreenso        dos        fatos       e        das        coisas.

- Mas o educador ajudar suavemente a idade: ensinando a verdade; fazendo pequenas e
freqentes chamadas  realidade. Sem fixao no real, a criana baralha os
acontecimentos, nega o que disse h pouco, inventa novas circunstncias.

Ex: O Jorginho, de 6 anos, contando os passeios que fizera a Paquet e ao Jardim
Zoolgico, disse que, neste, viu cavalos. Retificou depois que vira os cavalos em
Paquet, e negou ter dito que os viu no Zoolgico. Tnhamos gravado a conversa, que
lhe foi dada a ouvir para que se convencesse do seu engano. Pudera! Ele se explicou:
"Eu no disse isso, no." E apontando o gravador: "Ele se enganou"...

Por isso, alguns pedagogos chamam a essas narrativas "alteraes da verdade", porque
lhes falta o desejo de enganar, que  o colorido prprio da mentira.

- Outras vezes, estamos em face de poetas e romancistas... Criam histrias maravilhosas
e inverossmeis. Guardam-lhes os episdios. Explicam o que reputamos difcil. Irritam-
se, quando duvidamos de sua narrativa. Inventam novas circunstncias, quando se vem
em                                                                              perigo.

Ex: O mesmo Jorginho conta como o pai cria uns ndios em casa. A tia, que conhece a
casa, pergunta em que quarto. Apertado, ele localiza os ndios na garagem. Disse-lhe o
tio que ia ao Recife e queria ver os ndios. Mas ele explica que no pode abrir a porta,
seno        eles       saem. E        a       imaginao        vai       trabalhando.

Ex: "Papai, esto na sala mais de 100 homens procurando o senhor", disse a filhinha
anunciando uma comisso que chegara. Tranqilamente, o pai lhe pediu: "V contar
quantos homens so, e venha me dizer". Volta  menina, meio sem graa: "So 8
homens,                                                                     papai".

Excelente lio. No se falou em mentira, no se repreendeu nem humilhou a criana,
mas se lhe ensinou a dominar as impresses e submeter-se  realidade.

- Esta fase, forte dos 5 anos 6 anos, declina em seguida, extinguindo-se geralmente aos
8,      conservando       resqucio,     s     vezes,      at     os     10     anos.

- O educador ensinar  criana a ver, a observar, a precisar conjunto e mincias.
Educar a ateno e a memria: h exerccios interessantes, fceis e eficientes para isto.
O desenho e os trabalhos manuais so tambm valiosos neste particular.

- Foerster ("Instruccin tica de la juventud") observa que o ensino da matemtica se
pode tornar excelente corretivo desta espcie de "mentira". As exigncias "exatas" dos
nmeros iro dando  criana o senso de medida, avaliao e preciso que lhe falta.
Mas, para isto  preciso que a escola tenha a preocupao de educar, e no apenas de
dar os programas.




Vaidade

A) H crianas (e adultos...) que gostam de chamar a ateno sobre si, pr-se em
evidncia, fazer-se o centro de gravitao do mundo. No o podendo pela fora dos
fatos, recorrem  inventiva. No se contentam com a mediocridade da vida: enfeitam-
na. No ouvem uma vantagem alheia, que no tenham outra maior a apresentar. No  o
caso da mentira de compensao, porque aqui j agem de modo consciente.

So gabolas, mas s contam vantagens onde pensam no poderem ser desmascaradas.
- O pequeno que se gabava de saber falar ingls.
- Outro que atira muito bem e feriu o ladro a tiros; mas o pai lhe tomou o revlver...
- Outra prometia chegar qualquer dia  escola, de helicptero, que o pai ia comprar.

B) Alm das chamadas  realidade, a esses vaidosos devemos advertir do resultado
contraproducente das suas invencionices, que mais os desacreditam que engrandecem.
Podem cair no ridculo.

- Estimul-los a procurar reais situaes de prestgios, por meios lcitos: o estudo
assegura notas altas, a bondade granjeia amigos, a destreza nos esportes desperta
admiraes, etc.

- Como se trata de verdadeiras mentiras, falar-lhes do aspecto moral: Deus quer que
falemos a verdade. Recomendar o exame de conscincia a respeito, e o cuidado de
acusar-se desses pecados na Confisso. Mas proporcionar esses meios, de acordo com o
desenvolvimento da criana.

Altrusmo

A) Rarssima entre pequeninos (que mentem antes para descupar-se), encontra-se entre
escolares, e mais entre adolescentes, a mentira generosa ou altrustica, dita em defesa de
colegas e amigos, para evitar-lhes desgostos e tir-los de apuros. Numas vezes, apenas
nega a culpa de amigo; noutras, mas raras, toma-a sobre si.

B) Louve o educador a solidariedade, principalmente nos momentos difceis; mas
saliente que um belo sentimento h de ser servido por uma atitude nobre, e no por um
meio ilegtimo e vergonhoso, como  a mentira.

- No  fcil, em casos de solidariedade de grupos, ficar com a verdade. Ento importa
proclamar a dignidade de quem no mentir em caso algum, para no trair
deliberadamente a prpria conscincia.

- Se o adolescente, ao mentir em favor de algum, pensa em praticar um ato grandioso,
que se desengane. Grandiosa  a fidelidade  verdade. Por alto que parea o seu mvel,
a mentira  incompatvel com o sentimento de ntima honradez, que  a melhor base e o
melhor prmio do bom carter.

Bem apresentada, esta doutrina sustenta o nimo do jovem. Ou, ento, ele no 
generoso...

Maldade

A) Em certas mentiras o desejo de vingana se manifesta com clareza, embora seus
motivos sejam, s vezes, obscuros. Outras vezes so claros, e basta termos olhos para
v-los. A criana escorraada percebeu quanto a mentira irrita os pais; mente-lhes para
aborrec-los, vingando-se dos sofrimentos que lhe impem, protestando contra o
tratamento que deles recebe. Tanto  assim que mente sem lgica, afirmando agora o
que antes negava, negando fatos notrios, prelibando a indignao que provoca.
- Eu posso no perceber, mas os outros da famlia facilmente me diro por que Pedrinho
me mente.  para vingar-se de minhas implicncias e perseguies, das exigncias que
lhe fao e dos freqentes ou injustos castigos que lhe imponho.

- A vingana toma, em certos casos, tonalidade curiosa: a criana mente apenas a
determinada pessoa, ou sobre determinado assunto. A explicao, quanto aos assuntos,
no  to fcil: o mais das vezes s uma anlise profunda a descobre.

- Quando a criana acusa inveridicamente algum, pode faz-lo tambm por vingana
ou simplesmente por fraqueza de carter, para se defender, mesmo  custa do prximo...

- Quando a criana acusa os professores, sejam os pais muito cautelosos em dar-lhes
crdito. A facilidade com que  acreditada estimula essas mentiras de vingana.

Ex: Menina de 13 anos tirou sangue do nariz e sujou com ele a blusa, para acusar em
casa a professora. Era de ver a satisfao com que mostrava a notcia que o pobre pai
levou ao jornal e as palavras de censura com que o jornalista, leviano ou sensacionalista,
se referia  mestra caluniada!

B) Mais do que alhures, falharo aqui as tentativas de cura superficiais, diretas ou
violentas. Mais que nunca, devemos ir s causas e elimin-las, para cessarem os efeitos.
Afastada a causa da vingana, esta desaparece, levando consigo a mentira que lhe era o
instrumento.

- A fraqueza de carter demanda tratamento cuidadoso, de larga base e durao. Pede
mais pacincia que rigor. Muito mais assistncia que castigos.

- Nos casos mais rebeldes os especialistas sero chamados para diagnsticos e
orientao.

Doena

A) Normalmente, aos 7 anos comea a declinar a indiscriminao entre o real e o
imaginrio. Vamos, porm, que ela persista, sem respeito  idade; que a fantasia
continue envolvendo toda a vida, submetendo ou misturando o objetivo ao sonhado. 
provavelmente sintoma patolgico.

- Quando, alm da face citada, a memria,  to falha que confunde os vrios
acontecimentos e suas circunstncias, e a criana no  capaz de repetir de modo
idntico a mesma narrativa; ou quando, mais crescida, no oferece a devida resistncia
s sugestes, no se trata, infelizmente, de casos normais.

- Se a criana diz coisas abertamente inverdicas com desembarao, e no percebe que
fala inverdades, revela debilidade mental. Nesses casos pode acontecer (graas a Deus,
raramente) a mitomania. Os casos de surtos de mentira, mais ou menos agressiva,
aparentemente sem motivo, sero provvel epilepsia que se manifesta.

- Certas mentiras que revelam dissociaes esquizofrnicas nunca aparecem sem outros
sintomas de igual natureza.
B) Em todos esses casos da histeria  esquizofrenia, o melhor  no protelar o exame
mdico. No so para o tratamento do educador comum. Os pais bastam para a
educao normal, como bastam para a sade fsica normal. Quando os sintomas so
mais graves, assim para os males do corpo como para os da mente, vai-se ao mdico. E
quanto mais cedo, melhor.

De modo geral

De muitos meios pode o educador lanar mo para corrigir a criana que falta  verdade.
Vejamos os principais.

Ir s causas

Em qualquer circunstncias, o principal cuidado  indagar as causas. Por que mente esta
criana? Conhecida a causa, se no  apenas a idade da fantasia, cuidar de remov-la. E
como freqentemente ela est mais em ns que nas crianas, lembremo-nos de gua de
So Felipe de Nri: tomam-na os pais, saram os filhos... Isto  mais fcil de dizer que de
fazer, pois supe quase sempre a modificao do sistema de educao e do prprio
ambiente domstico ou social. Este ltimo h de ser trocado, quando no podemos
higieniz-lo.

Fazer amar a verdade

O fim da educao da sinceridade  infundir amor  verdade, horror  mentira e 
deslealdade, quaisquer que elas sejam, ainda pelos motivos aparentemente mais belos.
Dar ao educando a coragem de manifestar (prudente e discretamente) as suas
convices, e de assumir a responsabilidade de seus atos.

Isto supe processos educacionais capazes de dar o gosto da verdade e o seu amor.

S a alcanaremos atingindo a vontade do educando, movendo-o no desejado sentido.
Enquanto no o conseguirmos, estaremos apenas bordejando sem esperana de realizar
a verdadeira educao.

Confiar na criana

Um dos meios mais indicados para a cura da criana que mente (mentiras, no
fabulao prpria da idade)  confiar nela. "Fazer do ladro fiel", diz o brocardo. A
mentira revela quase sempre um erro de conduta; quem procede bem no precisa mentir.
Por sentir-se insegura, recorre  mentira, na esperana de firmar-se. A atitude do
educador influir decisivamente sobre a criana faltosa:

1) com rigor e dureza, precipit-la- em novas e mais apuradas mentiras, a fim de
escapar aos castigos;
2) com compreenso e bondade, desfar o medo, estabelecer a confiana, abrir
caminho  verdade.

Mesmo apanhando-a em mentira, devemos dizer-lhe que confiamos nela e esperamos
que nos corresponda. No somente dizer, mas agir assim:
- dando-lhes incumbncias de confiana: a princpio pequenas, mas crescentes  medida
em que ela corresponder;
- vigiando-a discretamente, para que a espionagem no a irrite;
- pedindo-lhe contas das tarefas, mas de modo amplo e generoso, que no denuncie
suspeita nossa;
- renovando-lhe a confiana, mesmo que ela s vezes recaia (por fora do hbito ou da
natural fraqueza);
- esquecendo (e calando para sempre) as faltas perdoadas.

Ainda quando um relato no nos satisfaz, devemos admitir que fale a verdade, at que o
possamos esclarecer. Ento, voltaremos ao assunto, com tranqilidade e firmeza.

A experincia ensina que nas famlias em que as crianas convivem intimamente com
os pais, em que estes "perdem tempo" com educao e se interessam pela vida dos
filhos, informando-se normalmente das suas atividades quotidianas, a mentira 
inexistente ou muito rara.

Estimular

Se os estmulos - prmios, elogios, cumprimentos - impulsionam aos prprios adultos,
quanto mais s crianas. A mentira lhe traz freqentes vantagens na ordem prtica:
escapam a castigos, conseguem dinheiro para guloseimas, etc. Decididas a falar a
verdade,  preciso no se sentirem fraudadas. O educador deve compens-las com
vantagens reais, tantas e mais do que as conseguidas pela mentira. Assim, elas vero
que vale a pena falar a verdade.

A autocrtica

A conscincia do homem normal  luz que no se apaga,  voz que no se cala, 
verdade que no o engana. Eu minto aos outros; a mim mesmo, no.

O verdadeiro educador no pode esquecer a formao da conscincia do educando. E
deve interess-lo profundamente e freqentemente nesse trabalho fundamental de
interrogar-se em face de Deus e de si mesmo.  pena que mesmo catlicos s usem
habitualmente do exame de conscincia para a Confisso. Pagos, como Sneca, o
queriam quotidiano. Eficaz sempre, ele o , de modo especial, na correo do mentiroso.

Pergunta este a si mesmo: "Falei a verdade? Disse o que devia dizer? Corresponderam 
verdade minhas palavras e atitudes? Fui honesto e leal nas minhas palavras e atitudes?
Fui honesto e leal as minhas intenes? Sinto-me tranqilo diante de Deus?"
Respondendo a outrem, poderei engan-lo; respondendo a mim mesmo, a conscincia
no permite enganos, ainda que eu os deseje. Levemos a criana a esse exame, certos de
que grandes xitos ele nos proporcionar.

Princpios para a vida

So os princpios que dirigem a vida moral. Inculc-los  obrigao de todo educador.
As bases religiosas, morais e sociais da sinceridade sero lanadas, com segurana, ao
longo da educao, quer de modo direto (quando oportuno), quer como caindo por
acaso.
As indicaes do valor tico da franqueza e da lealdade, da confiana que merece o
homem veraz, da coragem moral que a verdade exige, ou, por outro lado, a repulsa 
mentira, a lstima de no podermos crer no mentiroso, mesmo quando diz a verdade, a
pena de quem assim compromete a prpria honra, etc., podem sair-nos nas conversas,
quando as circunstncias o comportem. Isto vale mais do que os "sermes", cujos
efeitos so sempre menores do que a eloqncia, quando no cansativos e
contraproducentes.

E os castigos?

Ditoso educador, o que realizasse a misso sem recorrer a castigos. A maioria, porm,
ainda no compreende que  possvel corrigir sem punir. Sentem-se enfraquecidos, se
no castigarem... Aplicando castigos (quanto mais severamente, melhor!) sentem-se
realizados, mesmo que assim mais tenham feito pela perdio que pela emenda do filho!
Triste, essa mentalidade.

A essncia da educao da sinceridade est, como dissemos, em infundir na criana o
amor a verdade. Castigos jamais o conseguiro. Os meios para consegui-los ficaram
apontados. Concedo que sejam castigados os realmente mentirosos. E que o sejam mais
pela mentira que pela falta conexa.

Ex: Marina quebrou a jarra de estimao, e negou-o. Seja corrigida porque mentiu: seria
poupada, se o tivesse confessado. Afinal, um acidente acontece a todos ns.

Convenho que quem est habituado a castigos estranhar se no o receber pelas
mentiras. Julgar que os pais no as reputam mal. Como, porm, os castigos, quanto
mais severos mais aumentam e refinam as mentiras, aconselho aos que ainda no sabem
desfazer-se deles que os apliquem poucos e suaves.  a questo da insegurana: quanto
mais ameaadas, mais mentem as pobres crianas.

As crianas que mentem precisam mais de amparo que de punies. Mentiriam menos,
ou no mentiriam, se fossem mais felizes.

A reparao dos danos acusados pela mentira (quando previstos pelos mentirosos) no 
castigo,  dever. Assim, quem calunia tem obrigao de retratar-se, para repor o bom
nome da sua vtima.

O pecado da mentira

Claro que mentir  pecado, muitas vezes indicado na Bblia. Contrrio a Deus, suma
verdade, que nos deu a palavra para a sinceridade: "Seja o teu sim, sim; e o teu no,
no", disse Jesus. Anti-social, pois as relaes humanas s oferecem segurana, se
fundadas na verdade.

- No adulto, pode constituir pecado mortal, conforme a inteno e o dano previsto. Na
Bblia, as mentiras danosas foram castigadas com grande severidade. (Os dois velhos
que caluniaram Susana foram condenados  morte: Daniel, cap. 13) Em crianas, a
inconsiderao escusa, em geral, de culpa graves, mesmo quando haja o desejo de
vingana ou a preocupao clara de fazer mal a outrem.
- Na mentira em causa prpria devemos distinguir:

- a fria e calculada, para auferir vantagens;
- a proferida por medo, esta de muito menor malcia. Quando Sara ouviu que ia ter um
filho, riu, pois j no tinha idade. O Senhor a argiu, e ela o negou: "Eu no ri". O
Senhor se satisfez em apontar-lhe a mentira: "Tu riste, sim."(Gn. 18,10-15)

- Para a mentira generosa, a Bblia chega a ser... generosa tambm. Quando o fara
ordenou s parteiras dos hebreus que matassem os filhos-homens das mulheres que
assistissem, elas no o fizeram, alegando que as hebrias eram to fortes que davam 
luz sozinhas. A Bblia reala o temor de Deus que as parteiras revelaram, e cala a
mentira que pregaram. (Ex. 1,15-21).

- No exageremos o pecado que possam cometer as crianas ao mentirem. Podemos
infundir-lhes o arrependimento sobrenatural, pedir-lhes sinceridade por amor a Deus,
ensinar-lhes que peam auxlio divino para praticarem a sinceridade, a at falar-lhes do
pecado, sem contudo sobrecarregar-lhes a conscincia com uma culpabilidade acima de
sua mente.

Na confisso, acusar-se-o disto, como se acusam dos demais pecados.


                             11- O ORGULHOSO




Essa criana constantemente preocupada em mostrar as suas qualidades, inclinada a
exagerar o seu valor e a fingi-lo quando no existe, a chamar atenes sobre si, sempre
disposta a aparecer e ser notada, e que chega a tomar atitudes singulares no andar, na
fala, nos gestos, , sem dvida alguma, uma criana orgulhosa.

Seu grande cuidado  impor-se  considerao alheia, salientar-se onde se encontre,
estadear suas "altas qualidades", da inteligncia privilegiada aos cabelos bem penteados,
da bonita voz aos vestidos, dos "variados" conhecimentos s habilidades esportivas.
Seu orgulho pode tomar variadas formas, mas ao termo refere tudo a si, e a si o atribui
consciente ou inconscientemente, merecida ou imerecidamente. Na sua sede e louvor,
louva-se quando ningum a louva; e at de defeitos se gaba, quando j no h qualidade
e virtudes a realar.

Outras vezes, conforme as circunstncias, finge qualidades que no tm, jacta-se do que
no fez, excede-se nas medidas e nos modos, sem perceber o descrdito a que se lana,
e o ridculo que se avizinha.

Ainda bem quando, para engrandecer-se, no desmerece a outrem nem o despreza.

O paranide

No  o orgulho simples, a vaidade infantil (mais tangida por adultos), a bobice da
menina que exibe os cachos de cabelo ou do menino que mostra a fora fsica.  o
ensimesmado, permanentemente voltado para si, supervalorizando-se em tudo, egosta
profundo, centro do mundo, convencido de sua superioridade, que ele procura manter,
exagerando seus merecimentos e diminuindo os alheios.

Presunoso, sabe tudo, nada precisa que lhe ensinem, profere sentenas, reputa
ignorantes os que no o aplaudem, quer sempre dar a ltima palavra nas discusses,
porque no admite que contra ele possa algum ter razo. Discute at com os
professores, e, como no os pode calar, gritar-lhes ou ridiculariz-los (como faz aos
colegas), explica depois aos companheiros que "o professor se enganou".

E para sempre ter ocasio de exibir-se, cultiva a mania de oposio, atacando o que
outros louvam, ou louvando o que atacam, sem qualquer preocupao de coerncia.

Para sustentar a falsa posio em que se coloca, amplia insignificantes vantagens reais,
deforma os fatos em seu favor, completa-os com a imaginao, ou simplesmente entra
na fabulao em que figura como heri, predestinado, necessrio.

Inadaptado, hipersensvel, no estabelece duradoura harmonia seno com os que se lhe
sujeitam e reconhecem sua superioridade. Brigo, desobediente, insubordinado em casa
e na escola, faz praa de sua indisciplina, reputando fracos os que obedecem ("porque
no tm fora de vontade").  freqentemente tambm terror da vizinhana.

Insatisfeito quando no  o primeiro, taxa de injusta as notas escolares, acusa os mestres
de parciais, reputa-se perseguido quando no vence, gosta de dominar nos jogos, sempre
pronto a agravar as faltas alheias e desculpar as suas, embora mais graves e mais
freqentes.

O retrato  severo, mas fiel. Merc de Deus, pouco freqente com todos os
caractersticos apontados. Mais encontradios so os tipos atenuados, com alguns desses
sinais, notando-se sempre a tendncia  dominao, a mania de grandeza, a preocupao
de transformar em escravos os que o rodeiam, e a facilidade de explodir  mnima
contrariedade.

Trazendo do bero a constituio, manifesta-a desde pequenino, mas  na idade escolar
e na adolescncia que ela se pronuncia com mais clareza.
Fontes do orgulhoso

- Procede o orgulho do amor-prprio, que, sendo to necessrio e valioso em nossa vida,
pode degenerescer nesses excessos.

- Manifesta-se em pessoas medocres e inteligentes; mas nestas revela falta de reflexo:
pensando melhor no valor das coisas, mais se encontrar razes para a humildade que
para o orgulho.

- Bem analisado, o orgulhoso denuncia sentimento de inferioridade. De fato, quem tem
real valor no precisa trombete-lo: depressa ele ser reconhecido; e quem tem valor,
no h por que fingi-lo; se  grande no precisa exagerar; quem est certo de sua
superioridade, at se vexa de aleg-la; e aquele que se gaba,  que no confia em si.

- Revela tambm o orgulhoso grande ignorncia do real valor das coisas, prezando o
que pouco ou nada vale e cedo fenece, o que lhe foi gratuitamente dado por Deus, e de
que nenhum merecimento tem, ou aquilo que nada representa de valor humano.

Os motivos

Os mais freqentes motivos do orgulho so:

- dotes fsicos, que variam segundo a idade e o sexo;
- a inteligncia, com a qual confundem tambm a memria e mesmo simples
habilidades manuais;
- a riqueza, com as facilidades que proporciona  criana que a separam das menos
afortunadas;
- a posio social, que enche de empfia sobretudo os filhos dos figures que perguntam
aos "plebeus" se "sabem com quem esto falando";
- a famlia, cujo renome tradicional se cultiva atravs de sucessivos "vares
assinalados";
- finalmente os xitos pessoais, nicos que na verdade revelam s vezes algum esforo e
valor.

O ambiente

A natureza da criana orgulhosa  freqentemente ajudada pelo meio em que vive. Os
pais - a me especialmente - no se cansam de louvar-lhe a beleza e a inteligncia.
Compreende-se e aplaude-se que sejam encantados com os filhos; mas tambm se exige
que sejam discretos, para no prejudic-los. Quando a criana  realmente encantadora,
parece maiores perigos: ningum resiste ao gosto de provar-lhe e elogiar-lhe as graas.

Que Deus as proteja!

Os pais fomentam

- H pais que no sabem pr termo  sua vaidade: vo das gracinhas dos pequeninos s
exibies de inteligncia dos escolares.
"V buscar o seu boletim para me mostrar".
"Diga as capitais dos estados do Brasil".
"Vamos fazer uma viagem de navio em redor da Terra".
"Quais so os presidentes da Repblica, com as suas datas".

E as visitas se desfazem em louvores, mesmo avaliando a quanto custo foi aquilo
estereotipado.

- Outros compram, a peso de elogios, a magra obedincia dos filhos.

"V, meu bem; uma menina bonita como voc no desobedece ao papai." Ou: "um
menino inteligente como voc"...

Subverso de valores

Parte freqentemente o orgulhoso de errada noo de valores. A me, excessivamente
preocupada com vestes, o pai a gabar-se de que foi convidado para jantar com o
ministro tal, do aos filhos eficazes lies de ... vaidades. A pobre senhora que vive em
cafs "soaites", exibindo futilidades, fruindo os sucessos de que jornais e revistas
estampam os clichs, s por milagre pode ver a filha em caminhos de modstia e bom
senso.

- Na exurria de concursos de beleza, rainhas de fancaria e desfiles de modas, vo as
meninas perdendo a hierarquia dos valores e sendo arrastadas nas exibies em que as
mes, insensatas, as precipitam sem perceberem o mal que lhes fazem.

E fazem tambm a si, porque, mais tarde, sero elas mesmas as vtimas da
desobedincia, da arrogncia, da falta de senso dessas filhas "educadas" assim. Em vo
procuraro fazer valer a sua autoridade: ela est enfraquecida, seno anulada; e no
esprito dos filhos no h condies para a desejada ressonncia.

Orientar o orgulhoso

O intuito do educador no  destruir o orgulho: como todas as paixes, ele  uma fora
necessria, restando-nos moder-lo e orient-lo no sentido do bem. O brio, a estima de
si, o cuidado do bom nome, ("Cuida de teu bom nome, pois esse bem te ser mais
estvel que mil tesouros grandes e preciosos" - Ecl. 31,15) o apreo  dignidade pessoal,
o sentimento de honra, as tradies de famlia encontram forte estmulo num comedido
orgulho.

Este ser para crianas e adolescentes fcil apoio, de que se libertaro aos poucos, na
medida em que o esprito amadurecer e se firmar em valores mais altos e definitivos.

- H mesmo um nobre orgulho a cultivar nas crianas, como o de uma famlia bem
constituda e feliz, da felicidade da f catlica...

- Bem orientado, o orgulhoso ser um lder - e a formao de lderes  premente
necessidade da ptria. Pr a servio do prximo esses pequenos ambiciosos de glria
ser expediente valioso. As obras sociais de realizao imediata, as organizaes
religiosas, a ajuda s misses, etc., ser-lhe-o agradveis. Os esportes so derivativo.
Hierarquizar os valores

Dar s crianas o justo valor das coisas  cuidado perene na educao: - beleza, fora,
habilidades so demasiado perecveis; roupas e dinheiro nem sequer fazem parte de
nossa pessoa; posio social e riqueza mais nos do responsabilidade que honras: mais
nos obrigam a ajudar o prximo;boa famlia aumenta-nos os compromissos, pois temos
de mostrar-nos  altura dela.

"Somos filhos de santos e no devemos viver como pagos que no conhecem a Deus".
(Tob. 8,5)

No fomentar o orgulho

- Evitem os pais os elogios aos dotes fsicos das crianas; e quando estranhos os
fizerem, ponderem que mais valem as qualidades morais, pois as pessoas valem no
pela beleza, pela fora ou pela inteligncia, mas por suas virtudes;

- elogiem o uso das faculdades, o esforo feito, mas o faam com discrio, sem lisonja,
emulando para o dever, porque pequenos e discretos elogios so por vezes proveitosos
ou mesmo necessrios;

- ensinem a prelibar a alegria de conscincia que fez o bem, cumprindo o dever,
ajudando o prximo, praticando a virtude: no h elogios nem prmios que valham essa
ntima satisfao;

- mostrem-lhes sobretudo que ns valemos o que somos aos olhos de Deus, e no nos
modificam os juzos humanos: "Pouco se me d de ser julgado por vs ou por tribunal
humano. Meu juiz  o Senhor". (I Cor 4,3-4)

Assim, aos poucos, iro corrigindo as crianas orgulhosas.

Falar ao bom-senso

 preciso chamar a ateno do orgulhoso:

- mostrar-lhe a sem-razo da vaidade, o ridculo a que conduz, a humilhao que pode
produzir;
- ponderar que mais se preza a pessoa modesta e simples que a emproada e soberba;
- falar-lhes a ss, bondosamente, apontando-lhe os erros que comete, tratando-o com
mansido mas com firmeza, sem humilh-lo porque ento se revolta, mas sem escus-lo
(ele se defende muito bem).

A sano natural

Quando a criana vaidosa se vir nalgum embarao por suas gabolices ou exibies,
convm deixar que amargue, sem socorr-la por muito que isto custe: a est uma
punio forte e natural. Depois o educador lhe falar a respeito.

Recursos sobrenaturais
Ns, cristos, temos os elementos sobrenaturais da educao, e no podemos esquec-
los:

- as numerosas lies de humildade que nos deu Cristo. (ver: Mt. 11,29; Mt. 18,4; Lc.
14,14; Mt. 8,8; Lc. 18,14 e Mt. 8,10)

- os perigos espirituais que nos acarreta o orgulho, porque "Deus resiste aos soberbos, e
d sua graa aos humildes". (Tg. 4,6), e a soberba  uma fonte de numerosos pecados;

- o cuidado de fazer todas as coisas para glria de Deus, e no para nossa glria, porque
o Senhor  o princpio e o fim de todas as criaturas (reta inteno);

- o exame de conscincia at dirio (e no apenas para as Confisses), procurando no
somente as faltas mas tambm suas causas, encerrando-o com a detestao e o propsito
de evit-los;

- a freqente orao, para pedir a Deus a graa de resistir s tentaes e de praticar uma
sincera humildade;

- a prtica dos Sacramentos da Penitncia, que nos purifica, e da Eucaristia, que nos d
foras.

                             12- O PREGUIOSO




Agir  necessidade biolgica da criana. Corpo e mente no se lhe desenvolvem sem
movimento. Sua vitalidade  sinnimo de atividade, se  criana normal. Sendo
exuberante chega a parecer-nos excessiva sua movimentao.

O trabalho  natural e agradvel a todo homem sadio, especialmente  criana sadia. A
ociosidade lhe  insuportvel. Para a criana no h maior castigo que a imobilidade.

O trabalho  necessrio em todos os domnios  fsico, intelectual ou moral  sem
falarmos da luta pela subsistncia. A prpria  vida  incessante atividade: no corpo, a
respirao, a circulao do sangue e a digesto, sem as quais morreremos; na mente,
sentir, comparar e julgar.

O que torna os homens infelizes  a fadiga excessiva, a ausncia de xito, a falta de
correspondncia entre o esforo e o indispensvel  vida, a obrigao de realizar tarefas
por que no sentimos gosto, a impossibilidade de realizar o que nos agrada, a associao
da obra a idias odiosas. S por isto o vulgo execra o trabalho e faz do cio um ideal...
Mas o trabalho em si  fonte de alegria, pois realiza o homem, que, como diz J, "foi
feito para trabalhar como a ave para voar" (5,7).

Haver criana preguiosa?

A criana "parada" d logo idia de doente. Ociosidade e infncia normalmente se
excluem. Tamanha  a necessidade de ao da criana que mdicos e pedagogos
perguntam se as haver preguiosas  ou se no sero doentes (fsicas, mentais ou
psicolgicas) as assim chamadas.

 precipitao acusar de preguia a que no foi devidamente examinada pelo mdico e
pelo psiclogo. Alis, julgamos as crianas mais pelo que desejvamos que elas fossem
do que pelo que realmente so. Assim, chamamos preguioso o menino que no quer
fazer o que lhe impomos, medindo-o pelos nossos gostos, e no pelos seus. Se ele no
trabalha:

- no faz o que lhe mandamos;
- "no cumpre os seus deveres";
- "s quer brincar e comer" (sic);
- fica com o livro na mo, mas com o pensamento longe;
- s faz alguma coisa em nossa presena, mas folga quando damos as costas;
- fica remanchando;
- irrita-se to logo se lhe fala em trabalhar;
-  de tal moleza que dorme em p;
- brinca o dia todo e, mal pega no trabalho, se queixa de cansado ou de dor de cabea;
- s trabalha quando lhe "d na veneta"...

 ou no preguioso? Pode ser que seja, mas tambm pode ser que no seja... Mais
facilmente o chamarei doente, pois so de doena todos os seus sintomas. Nada,
contudo, direi com certeza antes que o mdico e o pedagogo tenham procurado as
causas de suas atitudes. Essa criana proceder por defeitos de sade fsica, distrbios
psicopticos, desajustamento social, muito mais freqentemente do que por preguia.

 o que iremos ver.

Sade fsica

Sendo a preguia antinatural, se a criana recusa trabalhar h de ser por causa muito
sria.

- Aquela criana mole, que dorme em p,  talvez hipotiroidiana. Esta insuficincia
glandular explica tambm as dores de cabea e o cansao de que ela se queixa.
- Ainda mais srios se tornam esses sintomas, quando provocados por mau
funcionamento da supra-renal: as fadigas so mais profundas, e a criana, perdendo a
vivacidade, se torna astenia.

- Pergunte ao mdico que transtornos podem causar as vegetaes adenides, as
amgdalas inflamadas, o desvio do septo, as deformaes torcicas... Oua o homem da
cincia, e ento zombar menos das dores de cabea e do cansao de que se queixa o
"preguioso".

- Toda me de famlia sabe de que  capaz o mau funcionamento do aparelho digestivo.
Sendo habitual, causar enormes transtornos na sua vtima.

- Se, em lugar de mdico e remdio, cuidados e carinhos, dermos a essas crianas
castigos e xingaes, s lhes faremos aumentar os males, agravando com desgosto e
humilhaes as suas deficincias.

- Pais que se negam a reconhecer as fceis fadigas dos filhos so muitas vezes
responsveis por elas. Deixam-nos a brincar at 9 e 10 horas da noite, ou  muito pior 
nos excitantes programas de rdio e TV at mais tarde ainda. As crianas no repousam
suficientemente, entram em dficit nervoso, tornando-se forosamente "preguiosas",
isto , incapazes para o trabalho, agitadas, irritadas, instveis, sem nimo para levar a
termo as tarefas escolares. Em vez de descontentar-se com o filho, devem esses pais
desgostar-se de si mesmos e procurar emendar-se.

Sade mental

Numerosas perturbaes psquicas e psicolgicas determinam tambm atitudes
erroneamente denominadas de preguia. Mais grave em si e por suas conseqncias, so
essas perturbaes mais perigosas que as somticas, pois no ficam to facilmente 
vista e se ocultam  maioria dos pais.

Apontemos algumas delas.

Protesto

1) Sentindo-se maltratadas pelos pais (com razo? Tanto pior; sem razo? Antes assim,
mas a causa existe subjetivamente), as crianas reagem de maneiras muito diversas.

Contra exigncias demasiadas, abusos de autoridade, mtodos errados de educao,
imposies indbitas, repreenses injustas na essncia ou na forma, elas manifestam o
seu protesto, s vezes, sob a forma de "preguia".

- Umas, extrovertidas, gritam as suas razes.
- Outras cruzam os braos silenciosamente e gozam os efeitos de sua greve.
- s vezes, umas e outras agem inconscientemente, e, tanto no  preguia que, com
outras pessoas e noutro ambiente, trabalham bem.

Mas, na verdade, no fazem o que lhes mandamos; ou escolhem os trabalhos que lhe
agradam e deixam os outros; ou no fazem como queremos. Acontece baixarem
repetidamente o rendimento, que era antes satisfatrio.
Essa inrcia ou resistncia passiva  to natural que os simples animais a manifestam.
Cansado ou maltratado, o cavalo estaca e ningum o demove. Alguns insetos, sentindo-
se bloqueados, fingem de mortos!

Incapaz de resistir de outra maneira, a criana, inconsciente ou voluntariamente,
procede assim.  a defesa dos mais fracos. A sua atitude, conforme a fora dos motivos,
pode ser de mera defesa, de claro protesto ou de aberta vingana. Irritados ou
desconhecedores desse sutil mecanismo interior, taxam-na muitos de preguia. A
criana sabe que  defesa, protesto ou vingana. Os psiclogos, conciliatrios, dizem:
"preguia" de defesa, ou de protesto, ou de vingana.

2) Em qualquer de seus graus e manifestaes, o primeiro cuidado  discernir as causas.

- No so os educadores daquelas crianas, os mais indicados para isto. O mais das
vezes,  inconsciente o seu procedimento, para com o educando. Por temperamento,
formao ou sistema, so duros, e no percebem seus excessos. A prpria famlia pode
apontar-lhes             o              que             devem               corrigir.

- Nem sempre ser to fcil o tratamento: no se atinou com as causas. Ou no se
descobriu se o protesto  ou no inconsciente. Como proceder? S o exame do caso pelo
psiclogo                      o                     poder                    dizer.

- Descobertas as causas do conflito interior da criana, resta remov-las, modificando o
adulto culpado o seu procedimento, - o que basta para modificar a criana  ou retirando
da mente desta a causa subjetiva, para que se restabelea a harmonia e funcionem
calmamente os instintos sociais.

Retardamento afetivo

1  A psicologia profunda faz pasmar quem a desconhece, e chega a irritar os mais
primrios. Foi o que aconteceu a certo amigo meu, bom advogado, mas retrgrado em
pedagogia. O filho, escolar relapso aos onze anos, guloso como um beb de dois, amigo
do sono, comodista a valer, com horror a tudo que o tire de seus hbitos, que vive a
criticar o trabalho alheio, e nada, no entanto procura fazer, , para ele, habituado a citar
Lombroso nas tiradas oratrias do foro, o tipo do preguioso-nato...

Riu, sincero e descrente, quando eu lhe disse que considerava o menor um retardado
afetivo. Expliquei-lhe que essa demasiada afeio  mesa era infantilismo, como
tambm o eram o gosto ao sono, o medo a novidades (a insegurana pueril prefere o que
 habitual) a tendncia a criticar sem propor solues (por incapacidade) e a ausncia de
ao retificadora  porque o infantilizado tem horror a dar de si (egotismo) e tudo quer
receber dos outros.

Achou a explicao "muito engenhosa" e lhe admirou ver como era possvel eu "passar
a mo pela cabea de um preguioso daquela marca", e quantos outros desacertos!

- J outros pequenos fingem de doentes para fugir ao trabalho. E sabem ser maneirosos
e amveis para despertar penas, receber carinhos e ser tratados como bebs.
2  Verificada a diferena entre estes casos e o retardamento glandular ou mental, o
educador procurar:

- levantar o nvel afetivo de seu pupilo;
- remover o que lhe detm o desenvolvimento normal;
- encoraj-lo por tarefas gradativamente ascendentes;
- despertar-lhe o gosto do esforo, a satisfao do xito do seu trabalho;
- estugar-lhe o passo para que vena o atraso e se ponha em tudo na linha da sua idade.

Desinteresse

1  Sendo o trabalho atividade to natural, impressionam desagradavelmente as pessoas
que "no gostam de trabalhar". To estranhas realmente, antes deveriam merecer-nos
penas, como doentes, do que desprezo, como preguiosos. De fato, essa inrcia psquica
que no encontra prazer no trabalho, nem quando este alcana o seu fim, s pode ser
mrbida, pois no  natural.

- Outro  o caso da chamada "preguia" eletiva, que escolhe as atividades que lhe
agradam, e das outras foge.

- Em ambos os casos, o adulto reagir por amor de Deus, por cumprimento do dever,
por brio ou necessidade; mas quem est ainda em formao, compreende-se que fuja do
que lhe no lhe apraz.

2  Ao educador, contudo, cabe curar o inerte e corrigir o outro. No comece, porm,
apelando para os altos motivos acima indicados, porque para os pequenos um motivo 
tanto menos eficiente quanto mais elevado. Ele compreende melhor os mais imediatos, e
se deixa mais facilmente atrair por eles.

- No o podemos deixar s com o que lhe agrada, mas no devemos priv-lo de suas
ocupaes favoritas. A estas misturaremos gradativamente as outras, ao mesmo passo
em que, por meios adequados, lhe infundiremos o gosto do trabalho e o amor ao dever.
Obrig-lo por fora esgota a vigilncia do educador (em cuja ausncia o trabalho cessa),
e no move a vontade nem a ateno. Impor-lhe o que lhe desagrada  fixar a
idiossincrasia,      antes      agravando        que      corrigindo        o      mal.

Lentido

1  Se h crianas (e adultos...) que remancham propositadamente, h tambm as que
so naturalmente lentas. s vezes, em tudo; outras, s nas atividades fsicas, pois so
vivazes e rpidas nas mentais.

- Pais e mestres (mal aparelhados) se irritam com elas e lhe dificultam a vida com
exigncias, prazos marcados para o trmino das tarefas, comparaes odiosas com
irmos ou colegas rpidos, complexando as que assim procedem sem culpa.

- Quando, alm disto, os pais so vaidosos, ai dos filhos lentos! Enquanto uns medocres
de inteligncia, mas vivazes, so elogiados como "brilhantes" e "de futuro", outros, na
verdade mais inteligentes, refletidos, e realmente de futuro (como os fatos mostraro)
so postergados ou mesmo injuriados. O menos que lhes chamam  de lesmas...
2  Se a lentido  propositada, enquadrar-se- nas causas j expostas, e receber o
tratamento indicado. Se  natural, pouco conseguiro os pais que desejarem quantidade,
mas conseguiro os pais que desejarem qualidade. Dou a dois datilgrafos o mesmo
trabalho: o primeiro o faz em 40 minutos, cheio de imperfeies que obrigam a
reescrev-lo; o outro gasta uma hora, e o servio  irrepreensvel. Qual  o lento? Qual o
prefervel? Claro que o ideal ser o rpido e perfeito; mas  tambm muito mais raro...


Mau exemplo

Muitas coisas, portanto, parecem, mas no so preguia. Mas h crianas preguiosas...
por causa dos pais! A inteno no era esta, mas foi este o resultado.

 "por amor" para com o "filhinho do papai" que:

- lhe do tudo  mo;
- mandam a empregada arrumar tudo quanto ele desarruma;
- criam-no sem o menor hbito de trabalho;
- deixam-no at os oito e dez anos sem saber atar os sapatos, ou pentear os cabelos, etc.,
etc., etc.
- e se admiram de que a "belezinha da mame" seja um dos "dez mais" preguiosos do
bairro                        ou                       da                        cidade.

Escusam-se certas mes que assim procedem, alegando que "felizmente esto em
condies de pagar empregadas para o filho"  como vezes sem conta, com profundo
desgosto, tenho ouvido. Quem assim "educa" no se deve espantar de que ao filho,
crescido na ociosidade, repugne qualquer espcie de trabalho. Tambm ao novilho
indmito repugna o jugo e a charrua, e ningum o chamar de preguioso.

Se a atitude dos adultos que cercam a criana no  de dedicao, mas de fuga ao
trabalho, se as suas mximas so de elogio ao "dolce farniente", se o ideal  enriquecer
para no trabalhar; se invejam os que nada fazem  por que estranham se os filhos
pensam e... agem assim? "Filho de fato  gatinho": filho de preguioso...  a
hereditariedade... pelo exemplo!

E no se castiga?

Relembro a distino entre castigo e correo. Ao educador (como ao educando) no  o
castigo que interessa,  a correo. O que importa  conseguir que o menor alcance
disposio para o trabalho. No  por castigos que o conseguiremos.

Quem j no sente atrativo para o trabalho ainda menos o sentir se associar sua idia 
de castigo. Quanto mais me impuserem tarefas desagradveis, mais repugnncias lhes
votarei.

H, no entanto, "castigos" que podem e devem ser impostos, em vista de seu carter
natural. Passeio, festa, certas guloseimas (refrigerantes, balas, etc.) so regalos que se
negaro a quem no fez por merec-los.
 to arraigada na maioria dos pais a tendncia a punir que repito: s os preguiosos, e
em ltimo recurso, recebero esses castigos; os doentes precisam de remdios.

Atitudes gerais

O verdadeiro educador ver no trabalho o mais importante meio educativo natural. O
educador cristo, que d alto lugar aos meios sobrenaturais (orao, sacramentos, amor
de Deus, estado de graa, cuidados de santificao), sabe que no h santidade sem
slidos fundamentos humanos, como no h construo duradoura sem alicerces
seguros.

Do ponto de vista da higiene fsica e mental, o trabalho condiciona o desenvolvimento
harmnico das faculdades e energias necessrias  vida, sem falar da situao
econmica,  qual tambm  ele indispensvel, trate-se de pobres ou de biliardrios.

Que devem fazer os pais?

Nunca  cedo demais para comear. Muitos trabalhos pode a criana fazer desde
pequenina:

- guardar os brinquedos e apanh-los para jogar;
- deixar nos lugares prprios roupas e calados que tirar;
- cuidar dos seus livros, etc.

A medida em que cresce, ir aprendendo a bastar-se, atendendo no que lhe  possvel s
prprias necessidades, como limpar os sapatos, etc. As meninas se encarregaro
oportunamente de:

- fazer suas camas;
- arrumas suas roupas;
- varrer o quarto de dormir;
- ajudar na copa e cozinha;
- iniciar-se nas costuras domsticas;
- ajudar a cuidar dos irmos menores, etc.

Os meninos vo a compras, ajudam no jardim, dedicam-se a trabalhos manuais.

Fazer amar o trabalho

No com prelees, que a criana desadoram. Mas com meios eficientes, que no
faltam.

- Os pequeninos podem associar o trabalho ao jogo, de maneira que faro o que devem,
sem distinguir os limites entre a brincadeira e o dever. Assim este lhes ir deixando no
esprito reflexos agradveis.

- Proporcionar condies favorveis: local apropriado  tarefa, durao compatvel com
as condies do sujeito, trabalhos agradveis (aos quais se iro juntando pouco a pouco
aos menos aceitos) e de acordo com o temperamento, as circunstncias de sade ou de
educao.
Despertar interesse

Quando a criana no oferece boa disposio para o trabalho,  preciso despert-la.
Oferecer ocasio para vitrias fceis, com resultados tangveis: isto encoraja.

- estabelecer discretas emulaes, descobrindo o que mais a estimule: h quem se anime
por motivos ideais, quem pelo amor-prprio e quem por vantagens extrnsecas -
cabendo ao educador descobrir o ponto sensvel e aproveit-lo pedagogicamente.

- Colocar os menos dispostos entre companheiros laboriosos  de bom efeito, desde que
no se estabelea comparao, que tornaria odiosa a companhia. A prpria criana
perceber a diferena, e reagir, por brio...

- Nada mais justo do que a recompensa ao esforo. Dem-na, quando as crianas a
merecerem. No a prometam, ou s o faam em casos raros. No transformem em
"suborno" to valiosa medida pedaggica. Que ela venha como espontaneamente:
"Muito bem. Voc fez um excelente esforo. Quero dar-lhe uma recompensa
extraordinria" - e diga o que , mas sublime bem o "extraordinrio", mesmo sem
chamar diretamente a ateno para isto.

- Outra maneira de estimular  apresentar o trabalho realizado aos amigos e visitas: um
discreto louvor  timo reconfortante.

Pedir mais

Como a vida, a educao sobe ou declina. Iremos sempre pedindo mais esforos 
criana: a idade aumenta, as possibilidades se desenvolvem, a capacidade se amplia - e 
preciso que ela produza mais e melhor.

A suma preocupao do educador  formar o carter: domnio de si, noo de
responsabilidade, amor ao dever, busca da perfeio. O trabalho dos menores visa antes
 formao moral que ao rendimento econmico.

- No comeo, contentar-nos-emos com a limpeza, a constncia, o respeito ao tempo
previsto.
- Mas apelaremos para esforos gradualmente mais srios, que produzam mais em
qualidade e sobretudo em qualidade.

Motivar bem

Vrios so os motivos pelos quais devemos trabalhar:

- Deus o quer;
- Cristo nos deu o exemplo;
- o que fizeram os Santos e os sbios;
- as exigncias sociais, a necessidade, os reclamos da sade fsica ou mental, etc.

- ou, pelo avesso, a vergonha da preguia, a inutilidade do preguioso, as tristes
conseqncias da ociosidade, e quantas outras misrias.
Anotamos que as crianas aceitam mais os motivos menos perfeitos: eles so mais
tangveis, mais prximos, mais compreensveis. Os mais elevados servem a
mentalidades mais altas. Entre uma preleo sobre o Filho de Deus simples operrio em
Nazar, e o risco de perder o passeio - a criana "compreende" melhor o risco de perder
o passeio...

Isto no significa que no motivemos elevadamente o trabalho. Devemos faz-lo, sim,
mas sem insistncias demasiadas. No faltaro oportunidades para dizermos de
passagem uma palavra sobre o assunto:




- uma estampa de Jesus ou So Jos na oficina;
- uma obra bem acabada;
- a dedicao de um bombeiro, de um mdico ou enfermeiro;
- a descoberta de um sbio em favor da sade ou do bem-estar dos homens;
- a vitria de um homem que se fez por si;

- ou, tambm pelo avesso, a decadncia de um negligente, a runa do moo que
dilapidou a rica herana, a diferena que entre dois irmos se estabeleceu pelo amor ou
negao do trabalho.

No esqueamos que a melhor motivao  o exemplo e o ambiente de trabalho que o
prprio lar oferece.
